Por Marco Severini — Num movimento que redesenha, de forma discreta porém significativa, a tectônica de poder em torno da questão palestina, o presidente dos Estados Unidos, Trump, avançou com convites para a criação de um Conselho de Paz destinado à gestão e reconstrução de Gaza. Inicialmente concebida como uma estrutura restrita em outubro passado, a iniciativa transformou-se agora numa plataforma muito mais ampla cujo alcance aparenta ir além da mera estabilização humanitária — projetando-se como um possível contrapeso institucional às Nações Unidas.
De Washington partiram convites a pelo menos 58 países, abrangendo desde Estados árabes e a Turquia, até a América do Sul, a Índia e a Europa, com a Itália entre os chamados. A presença de nomes como o do presidente russo Vladimir Putin e do bielorrusso Aleksander Lukashenko gerou desconforto e questionamentos; ao mesmo tempo, a inclusão do líder ucraniano Volodymyr Zelensky revela a natureza híbrida e deliberadamente ampla do projeto.
Entre os que já confirmaram adesão figuram, em primeiro plano, os mediadores regionais: Qatar e Egito, ao lado de outro ator-chave como a Turquia. Também sinalizaram positivamente Emirados, Marrocos e o Canadá. Do lado ocidental e populista do espectro político, aparecem a Argentina do presidente Javier Milei e a Hungria de Viktor Orbán, aliados habituais de Trump.
Do Oriente Médio vieram confirmações como as do Azerbaijão, da Bielorrússia, do Uzbequistão e do Cazaquistão. De Pristina, a presidente do Kosovo, Vjosa Osmani, declarou sentir‑se “profundamente honrada” pelo convite pessoal, destacando a percepção pró‑estadunidense de papel norte‑americano em processos de paz.
No entanto, a iniciativa suscitou reservas e recusas claras. A Alemanha adotou postura cautelosa: Berlinda o objetivo de paz, mas reafirma o papel central do quadro multilateral das Nações Unidas para a gestão de crises. A recusa franca veio da França, que questionou um estatuto que, segundo Paris, “vai além da sola Gaza” e levanta questões sobre a preservação dos princípios e da arquitetura das Nações Unidas. Em reação, o presidente Trump reagiu com retórica econômica — ameaçando taxas de até 200% sobre vinhos e champanhes franceses — provocando dura resposta de Paris, que qualificou a ameaça de “inaceitável e inútil”.
Também se retiraram da proposta países como a Noruega e a Suécia, que entenderam ser incompatível com seus compromissos multilaterais habituais. No plano interno de Israel, o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu foi pressionado: criticou duramente o Comitê Executivo para Gaza — órgão vinculado ao Conselho de Paz do qual fazem parte o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, e o diplomata qatariota Ali Al‑Thawadi — mas, após constrangimento político, aceitou o convite.
O cenário que emergem é o de um tabuleiro no qual Washington tenta montar um novo mecanismo de influência. Há, de um lado, a tentativa de concentrar atores regionais e globais em torno de uma iniciativa liderada pelos EUA; do outro, a resistência das capitais que veem na novidade um possível enfraquecimento do papel das Nações Unidas e um reordenamento das regras das relações internacionais.
Como em uma partida de xadrez de alto nível, cada convite e cada recusa representam um movimento estratégico: alianças são testadas, vetos tácitos são assumidos e, sobretudo, os alicerces frágeis da diplomacia são postos à prova. Resta observar se o Conselho de Paz se consolidará como um instrumento efetivo de reconstrução ou apenas como um novo diagrama de influência — um redesenho de fronteiras invisíveis no xadrez da geopolítica contemporânea.






















