Por Marco Severini – Em um movimento que redesenha as linhas invisíveis do poder no Ártico, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou em sua plataforma Truth Social que foi alcançado um acordo com a NATO relativo à Groenlândia que atende às exigências de Washington: sem dazi europeus, sem intervenção militar direta para anexação. A declaração encerra, ao menos publicamente, a crise diplomática que dominou o Fórum de Davos.
O teor do entendimento, segundo fontes citadas pelo New York Times e por comunicados oficiais ainda escassos, teria sido negociado pessoalmente entre Trump e o secretário-geral — identificado na agenda oficial como Mark Rutte — com a intenção de desarmar a tensão entre Washington e os aliados europeus. Das salas das chancelerias às conversas nos corredores do Centro de Congressos, a reação europeia permanece marcada pela cautela.
Antes do anúncio, a situação havia se inflamado por declarações como a do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, que descreveu a Dinamarca como “irrelevante” em uma entrevista, aumentando o clima de tensão. Rutte, porém, tomou a iniciativa de mediar um acordo que, segundo relatos, replica a lógica de soberania limitada já vista em outros pactos — reminiscentes das bases britânicas em Chipre — onde a soberania territorial permanece formalmente com o Estado anfitrião, mas áreas específicas ficam sujeitas a presença militar estrangeira.
Em entrevista à CNBC, Trump detalhou aspectos da proposta: a construção de um complexo de defesa que descreveu como um “Golden Dome“, destinado a ser “o maior escudo de mísseis de todos os tempos”. Além da componente militar, Washington estaria interessado no acesso a recursos estratégicos, em especial as chamadas terras raras sob o solo groenlandês, um elemento que confirma a natureza dual — defesa e economia estratégica — do acordo.
Do lado europeu, as reações oficiais oscilam entre alívio e prudência. O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, saudou a retirada das ameaças de força e apelou ao diálogo para conciliar as preocupações de segurança americanas com as “linhas vermelhas” do Reino da Dinamarca. O ministro das Finanças alemão, Lars Klingbeil, seguiu tom cauteloso, lembrando que o diálogo é positivo, mas que não se deve criar expectativas precipitadas.
No cenário prático, o entendimento reportado — se confirmado em detalhes — implicaria a instalação de bases norte-americanas em áreas delimitadas da ilha, em regime de soberania limitada, e garantias de acesso a recursos. Esta solução, embora contenha uma lógica de compromisso, reconfigura a tectônica de poder no Ártico: fortalece a presença americana sem formalizar uma anexação, mas impõe um novo desenho de influência sobre um território estratégico.
Enquanto isso, permanece a incerteza sobre eventos simbólicos planejados: as autoridades suíças investigam a origem de um incêndio que forçou a evacuação do Centro de Congressos na noite anterior e a cerimônia de assinatura do chamado “Board of Peace”, à qual Trump havia convidado diversos líderes, pode estar comprometida. Nos corredores, líderes como o presidente finlandês Alexander Stubb evitavam comentários até maiores clarificações.
Em termos geopolíticos, este episódio demonstra que, no tabuleiro global, movimentos decisivos podem deslocar interesses com rapidez, mas também que os alicerces da diplomacia seguem frágeis: acordos de soberania limitada resolvem crises imediatas, porém exigem arquiteturas de confiança e garantias que raramente se constroem da noite para o dia.






















