Por Marco Severini — Num movimento que redesenha linhas de influência e testa os alicerces frágeis da diplomacia, o Board of Peace, concebido como instrumento para a reconstrução da faixa de Gaza e para promover a paz regional, foi formalmente convocado com a presidência do Donald Trump. A composição anunciada mistura Estados soberanos, atores regionais e figuras não governamentais, numa arquitetura que lembra um tabuleiro onde peças tradicionais e peças atípicas se confrontam.
Entre os nomes listados destacam-se o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair — único europeu com assento, a par de um executivo cipriota —, os presidentes Recep Tayyip Erdogan (Turquia) e Javier Milei (Argentina). O primeiro‑ministro israelense Benjamin Netanyahu aceitou o convite; o presidente egípcio Al Sisi também deu o seu aval. Ao grupo somam-se Qatar, Turquia, Azerbaijão, Bielorrússia, Hungria, Cazaquistão, Marrocos, Emirados Árabes Unidos e Vietnã.
Na prática, o Conselho de Paz terá a atribuição de traçar as diretrizes políticas para o Comitê Técnico Palestino, destinado à administração provisória da faixa de Gaza. Essa engenharia institucional procura criar, em teoria, um interlocutor legítimo para a reconstrução, mas sobre um tabuleiro de poder onde as jogadas financeiras e legais podem redefinir os limites da soberania.
O ponto mais delicado do acordo veio do Kremlin. Segundo o porta-voz Dmitry Peskov, o eventual desembolso de 1 bilhão de dólares prometido pela Rússia ao Board of Peace exigirá o desbloqueio de ativos russos retidos nos Estados Unidos. “Não está claro como a contribuição será formalizada legalmente; tudo isso precisa ser discutido”, disse Peskov, sublinhando a necessidade de ações específicas por parte dos Estados Unidos. O presidente Vladimir Putin afirmou ainda que Moscou poderia utilizar ativos congelados nos EUA por administrações anteriores para cumprir o compromisso, uma jogada que converte atos financeiros em peças diplomáticas.
O Reino Unido optou por não participar da cerimônia de assinatura com Donald Trump, conforme anunciou a ministra dos Negócios Estrangeiros Yvette Cooper, citando preocupações sobre a participação russa em um organismo que se propõe a falar de paz — sinalizando, com parcimônia, as tensões que atravessam o tabuleiro ocidental.
Do lado israelense, o presidente Isaac Herzog, em Davos, evocou “nuvens ameaçadoras”: alertou sobre uma reorganização iraniana e sobre esforços de reestruturação por parte do Hamas em Gaza, concluindo que, embora a balança pareça pender a favor de Israel hoje, o contexto permanece volátil e perigoso.
Paralelamente, o Centro de Coordenação Civil‑Militar (CMCC), liderado pelos Estados Unidos para a estabilização da faixa de Gaza, apresentou projetos para uma “comunidade planejada” em área sob controle militar israelense. Os esboços preveem mecanismos de controle sobre habitantes, incluindo vigilância biométrica e postos de bloqueio — medidas que levantam questões centrais sobre soberania, direitos civis e o desenho urbano como instrumento de poder.
Em suma, esta é uma fase dois de uma tregua frágil: enquanto as peças se deslocam no tabuleiro, cada movimento financeiro, cada assinatura e cada projeto de infraestrutura constitui uma jogada estratégica. A paz proposta hoje é tão técnica quanto política; os próximos passos revelarão se estamos diante de um quadro de reconstrução genuína ou de um redesenho de fronteiras invisíveis entre autoridade, segurança e influência.






















