O Kremlin colocou uma condição clara sobre a proposta anunciada para financiar o Board of Peace: o repasse do bilhão de dólares, pedido pela Casa Branca, está atrelado ao desbloqueio dos ativos russos congelados nos Estados Unidos. A mensagem, transmitida com a gravidade institucional de sempre, foi reiterada pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, refletindo o duplo caráter — político e jurídico — do movimento em curso.
Nas palavras de Peskov, ainda não está claro “como tal contribuição será formalizada juridicamente”, um tema que, disse ele, terá de ser discutido e que “exige o desbloqueio”. Em termos estratégicos, trata-se de transformar um gesto financeiro em um instrumento de alavanca diplomática: um movimento no tabuleiro em que as peças econômicas passam a condicionar a arquitetura das negociações.
Paralelamente, o Kremlin evitou comentar com entusiasmo as declarações públicas de Steve Witkoff, enviado norte-americano que descreveu avanços nas conversas de paz — reduzidos, segundo ele, a “uma só questão”. Questionado sobre o estágio dos contatos, Peskov limitou-se a afirmar que não faria comentários antes da chegada de Witkoff a Moscou e do seu encontro com o presidente Vladimir Putin. Witkoff chega esta noite a Moscou acompanhado por Jared Kushner, genro do presidente norte-americano Donald Trump, numa delegação que, simbolicamente, mistura negócios, política e influência.
O comunicado do Kremlin deixa explícito que a Rússia continuará a utilizar todos os instrumentos legais e diplomáticos disponíveis para obter o desbloqueio dos seus bens imobilizados no exterior. A oferta de destinar parte desses fundos — cerca de um bilhão de dólares — ao Board of Peace, iniciativa ligada à proposta norte-americana para Gaza, aparece assim condicionada a um gesto recíproco por parte de Washington: a transformação de ativos congelados em moeda de troca política.
Num dado comentário que revela tanto o deslocamento da cena global quanto prioridades internas, Peskov afirmou que “tudo o que diz respeito à Groenlândia não são negócios nossos. Temos muito a fazer”, prosseguindo numa lista de prioridades que inclui a operação militar especial, desenvolvimento econômico, correção demográfica e avanço na eletrônica nacional. A frase sublinha a escolha de prioridades estratégicas e o alicerce — ainda frágil — da diplomacia russa neste momento.
No front ucraniano, o Kremlin lançou um chamado velado a Kyiv: “o regime continua a sua política, mas chegou o momento de tomar decisões apropriadas e assumir responsabilidades”, disse Peskov, em tom de ultimato diplomático mais do que de sugestão.
Enquanto isso, a situação humanitária em Kiev permanece grave: cerca de 3.000 edifícios residenciais ainda estão sem aquecimento após os recentes ataques russos, afirmou o prefeito Vitali Klitschko em seu canal no Telegram, acrescentando que houve cortes de energia emergenciais e que somente 227 domicílios tiveram o aquecimento restabelecido na noite anterior.
Em outro tabuleiro, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky parte para Davos, onde está previsto um encontro com Donald Trump, segundo reportagens ucranianas e o Financial Times. O encontro em Davos soma-se à multiplicidade de frentes diplomáticas e privadas que estão redesenhando, de forma discreta, a geografia das influências internacionais.
Em síntese: há um desenho estratégico em curso — um intricado jogo de propostas condicionais, deslocamentos pessoais de alto nível e sinais públicos que não dizem tudo. O que se vê é apenas a superfície de um movimento mais profundo, onde ativos congelados, iniciativas de paz e encontros bilaterais se tornam peças de um mesmo xadrez de poder.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia. Observador da tectônica de poder entre Ocidente e Rússia.






















