Por Marco Severini — O tabuleiro de poder nos Estados Unidos registra movimentos que alteram alicerces já fragilizados da diplomacia doméstica. As operações do ICE (Immigration and Customs Enforcement) tornaram-se mais agressivas e visíveis, com consequências humanitárias e jurídicas que reacendem um conflito entre a administração federal e governos estaduais liderados por democratas.
No norte de Minneapolis, palco recente de choques entre autoridades federais e comunidades locais, escolas denunciaram a prisão de quatro estudantes — entre eles uma criança de 5 anos e outra de 10 — durante patrulhas realizadas por agentes do ICE. As observações da superintendente Zena Stenvik descrevem um cenário em que agentes seguem bairros e chegam a acompanhar escolabuses, alimentando um clima de medo entre famílias imigrantes.
O caso reaperta o nó político aberto pela morte de Renee Good, a mãe que foi baleada por um agente do ICE ao tentar fugir em um veículo no início de janeiro. Enquanto o chefe da Border Patrol, Gregg Bovino, assegura que as ações miram apenas indivíduos com antecedentes criminais, apurações locais mostram que muitas das pessoas afetadas têm pedidos de asilo em andamento e nenhum mandado de expulsão pendente.
Uma peça-chave desta nova estratégia veio à tona num memorando interno do ICE obtido pela Associated Press: agentes teriam recebido autorização para forçar entrada em residências privadas sem mandato judicial, baseando-se apenas em ordens administrativas. A medida colide diretamente com as salvaguardas do Quarto Emendamento da Constituição americana e remexe as históricas linhas que limitavam o acesso à propriedade privada sem autorização de um juiz.
Paralelamente, um laudo de autópsia lançado recentemente lança uma sombra mais densa sobre as condições nos centros de detenção. Geraldo Lunas Campos, imigrante cubano de 55 anos, faleceu em 3 de janeiro na instalação conhecida como East Montana, no Texas. A causa indicada pelos legistas foi asfixia por compressão do pescoço e do tórax; o óbito foi classificado como homicídio, com sinais de confronto físico com guardas. Fontes do Departamento de Segurança Interna (DHS) haviam inicialmente sugerido uma tentativa de suicídio.
O East Montana é operado por uma empresa privada que, segundo registros, não tem longa experiência no setor carcerário. A morte de Campos é o terceiro caso registrado em pouco mais de um mês naquela unidade, reacendendo críticas sobre a terceirização de cuidados e a supervisão de instalações migratórias.
Politicamente, essas ocorrências ampliam a tensão entre o governo do presidente Donald Trump e governadores democratas como Tim Walz, do Minnesota. A escalada levou a ações judiciais recíprocas, enquanto parlamentares democratas exigem o fechamento de centros de detenção temporários e investigam práticas operacionais do ICE, que, mesmo assim, segue ampliando operações em grandes cidades americanas.
Na arquitetura desta crise, não se trata apenas de incidentes isolados, mas de um redesenho de fronteiras invisíveis entre segurança nacional, políticas migratórias e direitos civis. Como num jogo de xadrez em que uma torre avança desencadeando reações em várias diagonais, cada decisão operacional do ICE produz repercussões jurídicas e humanitárias que exigem respostas institucionais firmes e transparência.
Do ponto de vista estratégico, a resposta dos estados e do Congresso configurará os próximos movimentos: equacionar a necessidade de controle de fronteiras com o respeito ao devido processo e à integridade física das pessoas detidas é tarefa que ultrapassa meras declarações públicas. É um desafio de Estado, que pede reconstrução de alicerces e supervisão independente das práticas de detenção.






















