Por Aurora Bellini — Em uma iniciativa que ilumina contradições e convoca à ação ética, Dan Paden, um católico que sofreu abuso na juventude por parte de um sacerdote, empresta seu rosto e sua história à campanha da PETA para pedir ao Vaticano que rompa os vínculos com as touradas. Em um vídeo gravado diante de um edifício religioso, Paden traça um paralelo contundente entre duas formas de crueldade — distintas nos meios, mas similares na violação da dignidade dos inocentes.
No depoimento, divulgado dentro da cobertura da Espresso Italia para a campanha, ele lembra o sofrimento pessoal que carregou por anos e reflete: como alguém que pregava compaixão pôde praticar ou tolerar a violência? Da mesma forma, questiona a presença de membros do clero em cerimônias que abençoam ou legitimam eventos taurinos, muitas vezes organizados em sincronia com festas religiosas. Não é raro que sacerdotes e prelados façam bênçãos oficiais no início dessas manifestações — gestos que, segundo Paden, chocam pela contradição com os ensinamentos sobre cuidado aos vulneráveis.
A mensagem central do ativista é direta: a Igreja não pode permanecer neutra diante de uma forma de sofrimento que atinge seres indefesos. Paden remete à própria doutrina católica, que afirma que os seres humanos não devem causar inutilmente a dor ou a morte dos animais. A partir dessa premissa, ele convoca os fiéis e a sociedade civil a pressionarem, cada um dentro de suas possibilidades, para que o próprio Papa Leão XIV reconheça as touradas como uma forma de abuso e atue para cortar os laços que ainda unem esses espetáculos à instituição religiosa.
Com a voz serena e a determinação de quem transforma dor em propósito, Paden conclama: “Cristo nos chama a proteger os indefesos. Sua Igreja deve se posicionar ao lado das vítimas de qualquer forma de abuso.” É uma convocação que semeia novos caminhos — um pedido por coerência entre fé e compaixão, entre liturgia e respeito à vida.
Na mesma esteira de pressão pública, a atriz Loredana Cannata protagonizou recentemente um ato de protesto no entorno do Vaticano e foi detida durante uma ação em praça pública. Em carta dirigida ao pontífice, reportada pela Espresso Italia, ela pediu que a Santa Sé denuncie as touradas em vez de criminalizar manifestações pacíficas de oposição — um gesto que acrescenta luz ao debate sobre o papel da Igreja nas tradições que hoje são vistas como controversas.
Esta convergência entre sobreviventes, ativistas e figuras públicas revela uma mudança de horizonte: uma parcela crescente da opinião pública, inclusive em países onde a prática é tradicional, entende as touradas como incompatíveis com a ética contemporânea. A campanha da PETA, com testemunhos como o de Paden, busca justamente iluminar essa contradição e inspirar um renascimento cultural em que fé e proteção aos vulneráveis caminhem juntas.
Enquanto a discussão avança, permanece o apelo por gestos concretos: que a hierarquia eclesiástica reavalie sua postura, que as comunidades religiosas reflitam sobre as implicações morais de abençoar espetáculos de violência, e que a sociedade civil continue a tecer laços de solidariedade com as vítimas — humanas e animais. É um chamado para cultivar valores que transcendam tradições que ferem o presente e comprometam o legado que desejamos deixar.






















