Por Riccardo Neri — Esta noite, 5 de dezembro, faleceu em Pádua o físico Renato Angelo Ricci, aos 98 anos. Reconhecido como o pai da espectroscopia nuclear na Itália, Ricci deixa um legado que estruturou boa parte dos alicerces científicos e institucionais da física nuclear no país.
Professor emérito da Università degli Studi di Padova, Ricci desempenhou papéis institucionais decisivos: foi o primeiro diretor dos Laboratori Nazionali di Legnaro, vice-presidente do INFN (Istituto Nazionale di Fisica Nucleare) e presidente da comissão nacional do INFN dedicada à física nuclear. Fora do âmbito do INFN, coordenou também grandes comunidades científicas, tendo sido presidente da Società Italiana di Fisica (SIF) e da European Physical Society (EPS).
Como cientista, Ricci foi autor de numerosas publicações nas áreas da espectroscopia nuclear, física de íons pesados, história da física e investigação interdisciplinar. A sua visão técnica e institucional ficou marcada por uma contribuição concreta: foi responsável por trazer aos Laboratori di Legnaro o primeiro acelerador eletrostático de íons pesados em solo italiano — o TANDEM de 16 MV — uma infraestrutura que alterou o fluxo de pesquisa experimental no país, criando novas camadas de capacidades experimentais.
Além dos resultados experimentais e teóricos, Ricci foi um docente generoso. Centenas de jovens pesquisadores e pesquisadoras passaram por sua orientação de tese, e muitos setores da física nuclear italiana carregam até hoje a marca de sua pedagogia. Em 2023, em reconhecimento à sua contribuição, recebeu a Medalha INFN, honraria concedida a personalidades que moldaram a história do instituto.
Antonio Zoccoli, presidente do INFN, recorda: “Tive o prazer de conhecer Renato Angelo Ricci quando eu era um jovem pesquisador recém-formado. Desde o início percebi não apenas um cientista brilhante, mas uma pessoa especial. Sua visão e seu contributo foram decisivos para o desenvolvimento dos Laboratori Nazionali di Legnaro e do nosso instituto. O que o distinguia era sua atenção aos jovens e ao lado humano da pesquisa.”
Angela Bracco, presidente da Società Italiana di Fisica, afirma que para ela Ricci foi “uma grande fonte de inspiração e um ponto de referência nos primeiros anos de carreira”.
Como analista que observa as camadas invisíveis da infraestrutura científica europeia, vejo em Ricardo Ricci o arquiteto de uma parte do sistema nervoso das cidades científicas italianas: alguém que projetou não apenas equipamentos, mas rotas de formação, fluxos de conhecimento e procedimentos institucionais. A chegada do TANDEM 16 MV aos Laboratori di Legnaro foi comparável à instalação de um novo transformador numa rede elétrica local — mudou a capacidade disponível e permitiu conectar novos experimentos e competências.
A sua morte representa a perda de um dos guardiões dos fundamentos da física nuclear italiana, mas também deixa uma herança prática: laboratórios estruturados, gerações formadas e uma arquitetura institucional mais robusta. Em termos de memória institucional e de impacto científico, o contributo de Ricci permanece como um componente permanente do mapa de pesquisa europeu.
As informações sobre cerimônia e homenagens serão divulgadas pelas instituições às quais esteve ligado. Nesta hora de despedida, a comunidade científica italiana reconhece a contribuição de um homem cuja carreira foi, em termos concretos, a construção de infraestrutura de conhecimento — camadas de inteligência que continuam a sustentar investigação e formação.



















