Bruxelas — Em discurso propositivo e de tom estratégico no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, a presidente da Comissão Europeia, von der Leyen, convocou os Estados-membros a consolidarem uma Europa mais autônoma face às novas fricções do cenário internacional. A intervenção aconteceu às vésperas de um encontro informal de líderes europeus que se anuncia tenso, e expôs, com clareza calculada, o que chamo aqui de um movimento decisivo no tabuleiro da geopolítica.
Segundo von der Leyen, o mundo atravessa “uma mudança no ordenamento geopolítico, não apenas sísmica, mas permanente”. Para a presidente da Comissão, é preciso encarar a realidade do poder — econômico, militar, tecnológico e geopolítico — sem ilusões. Esse diagnóstico adquire contornos práticos e imediatos exatamente no episódio em que o governo de Trump manifestou interesse explícito pela Groenlândia e ameaçou impor tarifas a Estados europeus que se opusessem a suas iniciativas.
Na leitura de von der Leyen, a Groenlândia é “a pátria de um povo livre e soberano”, cuja integridade territorial e futuro cabe decidir apenas aos groenlandeses. A presidente reforçou que as tarifas anunciadas por Trump constituem a resposta errada a um desafio que deve ser enfrentado no quadro mais amplo da cooperação da NATO pela segurança do Ártico. A retórica do presidente norte-americano — repetida em Davos — de que os Estados Unidos querem “este grande pedaço de gelo chamado Groenlândia” e que “se os europeus disserem não, nós vamos lembrar” acrescenta uma nota de pressão direta às relações transatlânticas.
Este episódio confirma, nas palavras da própria Casa Branca e no comportamento público do magnata, uma determinação em espremer oportunidades geoestratégicas. A consequência é um relacionamento UE‑EUA marcado por atritos renovados. A resposta sugerida por von der Leyen é, portanto, um reforço da autonomia estratégica europeia: autonomia econômica, comercial, energética e em matéria de defesa — alicerces que, no entendimento da presidente, devem ser fortalecidos para resistir à tectônica de poder contemporânea.
Na prática, a presidente insistiu que quanto mais parceiros comerciais a União tiver ao redor do mundo, maior será sua independência. Citou avanços como o acordo com o Mercosur e as negociações com a Índia e outros parceiros extracomunitários como passos nessa direção. Contudo, poucas horas depois do discurso, veio a notícia que ilustra os limites institucionais do bloco: o Parlamento Europeu decidiu remeter o acordo com o Mercosur ao Tribunal de Justiça da UE para verificar sua compatibilidade com os Tratados, um movimento que pode adiar a ratificação por 18 a 24 meses.
O adiamento coloca líderes europeus diante de um duplo desafio: fortalecer uma frente comum para responder a pressões externas, ao mesmo tempo em que salvaguardam os processos internos e o respeito ao Estado de Direito. É um jogo de xadrez em múltiplas frentes, onde cada lance institucional contém risco e oportunidade. A União terá de redesenhar, com precisão cartográfica, suas linhas de ação para preservar interesses estratégicos sem subverter os alicerces frágeis da diplomacia interna.
Concluindo, von der Leyen não ofereceu soluções instantâneas, mas lançou um apelo claro: a Europa deve construir maior soberania operacional para continuar sendo um ator confiável na cena global. Em termos de Realpolitik, trata‑se de transformar vulnerabilidades em capacidade de influência — um movimento que exigirá coesão, paciência e visão de longo prazo dos Estados-membros.





















