Por Chiara Lombardi — Quando o jazz decide sair do palco e invadir espaços de memória, a cidade vira um set onde passado e presente improvisam juntos. A 47ª edição do Bergamo Jazz, dedicada ao centenário de Miles Davis e John Coltrane, não se limita aos teatros tradicionais Donizetti e Sociale: de 19 a 22 de março a música percorre museus, salas cinematográficas e palácios, desenhando um roteiro que é também um espelho do nosso tempo.
O festival, com curadoria artística assinada por Joe Lovano em colaboração com Roberto Valentino da Fondazione Donizetti, aposta na expansão espacial e estética — uma estratégia que conjuga volume e qualidade. Como sintetiza Sergio Gandi, vice‑prefeito e assessor de Cultura, trata‑se de um evento que “explodiu, em prestígio e difusão”: os concertos chegam onde o público menos espera, transformando cada sala em verniz sonoro de uma cidade em diálogo com a arte.
Entre os destaques, o palco inusitado da Aula Picta do Palazzo Vescovile receberá pianistas de renome, enquanto o Museo Bernareggi abre suas salas para o piano intimista dos americanos e latino‑americanos: o norte‑americano Wayne Horvitz apresenta um solo no dia 19, e o argentino Leo Genovese encerra a programação museal dia 22. A violina de Anaïs Drago aparecerá nas galerias da Accademia Carrara, reforçando o laço histórico entre música e pintura que o festival cultiva há anos.
Outros palcos recentes também recebem a programação: o Auditório do Istituto Palazzolo e a sempre acolhedora Sala Piatti em Città Alta entram como casas novas para o evento. No Palazzolo tocam os estadunidenses Jazz Passengers (20) e a banda da guitarrista norueguesa Hedwig Mollestad (21) — num jogo que vai dos ecos oitentistas aos cruzamentos com o rock. Em Sala Piatti, um encontro geracional une a cantora e letrista londrina Norma Winstone, veterana desde os anos 60, ao jovem pianista Kit Downes, destacando a continuidade e o reframe da tradição jazzística.
Giorgio Berta, presidente da Fondazione Teatro Donizetti, ressalta a “commistione fra generi”: é essa mistura que torna o festival um laboratório de encontros. E um dos cruzamentos mais significativos é com o cinema. A tradição do diálogo entre o Bergamo Film Meeting e o Bergamo Jazz segue viva: no dia 15 de março, no Auditório de Piazza della Libertà, a violinista Virginia Sutera fará a sonorização ao vivo de La sguattera diventata contessa (1918), uma ação que coloca a memória cinematográfica no centro da experiência sonora.
Ao deslocar o concerto para museus e cinemas, o festival não cria apenas locais alternativos — ele reconstrói significados. Cada performance em um afresco, em uma galeria ou numa sala de projeção tem o poder de recontextualizar tanto o repertório quanto o espaço público: é o roteiro oculto da sociedade que se revela ao som. Em Bergamo, a música deixa de ser apenas espetáculo para virar mapa afetivo da cidade.
Sejam pianistas, violinistas ou bandas de rock‑jazz, a oferta do Bergamo Jazz 2026 confirma que a cultura pode ser curadora de experiências compartilhadas. O festival se apresenta como uma narrativa polifônica — onde memórias centenárias de Miles Davis e John Coltrane conversam com as urgências sonoras do presente — convidando o público a escutar não só as notas, mas o contexto que as faz ressoar.






















