Por Aurora Bellini — Enquanto as luzes se acendem sobre as pistas que receberão atletas e público, uma carta urgente chega como um feixe de luz projetando outro horizonte possível. A organização internacional PETA enviou um apelo direto a Carlo Zarri, diretor culinário dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Milano‑Cortina, solicitando que os menus das áreas de hospitality do evento sejam compostos exclusivamente por opções veganas.
A proposta não mira as dietas rígidas e controladas dos atletas, mas sim as receitas oferecidas a espectadores, equipes técnicas, imprensa e staff — aquele universo humano que circula pelos bastidores e pelas tribunas. Segundo a PETA, adotar cardápios baseados em plantas durante a realização dos Jogos seria um gesto coerente com o compromisso público de sustentabilidade que o evento repetiu em sua comunicação, além de uma oportunidade educativa para sensibilizar multidões sobre o impacto da alimentação no planeta.
Na justificativa enviada ao chef Carlo Zarri, a ONG destaca que a produção de carne e laticínios é responsável, direta e indiretamente, por parcela significativa das emissões de gases de efeito estufa, desmatamento, aumento das temperaturas e episódios de seca. Esses mesmos fenômenos afetam a própria viabilidade dos esportes de inverno: muitas estações dependem hoje, segundo estimativas citadas pela PETA, de até 90% de neve artificial (innevamento) para garantir a prática do esqui — um recurso que exige grande consumo de água e energia.
Há uma contradição óbvia, lembra a carta: enquanto o evento se coloca como vitrine de sustentabilidade, obras, novos acessos e instalações ligadas aos Jogos têm sido alvo de críticas ambientais por consumo de solo e impacto local. Diante disso, a adoção de menus sem produtos de origem animal surge como um gesto de mitigação concreto e replicável, capaz de salvar o ambiente e os animais ao mesmo tempo em que ilumina caminhos para escolhas mais responsáveis.
O pedido da PETA não é inédito no mundo dos grandes eventos: iniciativas de alimentação plant‑based já vem sendo testadas em festivais, conferências e até em algumas casas de alto padrão — muitas vezes com grande aceitação do público e sem perda de qualidade gastronômica. A carta lembra que grandes chefs têm mostrado como a cozinha vegetal pode ser criativa e saborosa, e propõe que a equipe culinária dos Jogos aproveite essa janela para semear inovação e cultura alimentar sustentável.
Especialistas em clima e operadores de turismo de montanha alertam que o aquecimento global coloca em risco a longevidade das estações de esqui. O uso massivo de canhões de neve é uma solução paliativa que consome recursos e, ao mesmo tempo, é impactado pelas mudanças climáticas. Nesse contexto, reduzir a pegada associada à alimentação coletiva aparece como uma política de mitigação palpável: menos demanda por produtos de origem animal pode significar queda nas emissões agregadas e contribui para um horizonte mais límpido para os esportes de inverno.
Como curadora de progresso e com o olhar voltado para o legado, vejo esse episódio como uma oportunidade para que os organizadores transformem intenção em ação. Trocar pratos não é apenas substituir ingredientes: é construir novas narrativas, tecer laços sociais em torno de escolhas éticas e cultivar valores que resistam ao evento efêmero e deixem rastros de mudança positiva.
Responder ao pedido da PETA seria, portanto, mais do que um gesto simbólico — seria acender uma luz sobre como grandes acontecimentos podem alinhar prestígio e responsabilidade. Que a hospitalidade dos Jogos possa funcionar como vitrine de uma gastronomia que respeita animais, pessoas e paisagens, inspirando públicos a imaginar e adotar hábitos que protejam nosso clima e os lugares que amamos.
Referências internas e análises complementares: Espresso Italia — cobertura sobre alimentação sustentável e impactos dos eventos esportivos no território.





















