Ai, a famosa fêmea de chimpanzé que ajudou a revelar facetas pouco conhecidas da mente dos primatas, morreu aos 49 anos no Japão. O óbito ocorreu em 9 de janeiro, no Centro para as Origens Evolutivas da Universidade de Kyoto, e foi causado por insuficiência de múltiplos órgãos relacionada à idade, segundo a equipe que a acompanhou por décadas.
Nascida na África Ocidental em 1976 e levada ao Japão quando tinha um ano, Ai tornou-se símbolo do pioneiro Projeto Ai, voltado ao estudo cognitivo de primatas não humanos. Ao longo da vida, demonstrou habilidades notáveis: reconhecia os números de um a nove, identificava 11 cores, associava até 300 objetos a etiquetas visuais e decifrou alguns caracteres kanji e do alfabeto inglês — capacidades que lhe renderam reconhecimento em periódicos científicos já nos anos 1980.
Os cientistas do projeto colocaram, quando Ai tinha 18 meses, um teclado especial conectado a um computador para testar sua memória e aprendizado. Em um dos ensaios, ela viu na tela o caractere chinês para a palavra “rosa”, junto a um quadrado rosa e outro violeta, e selecionou corretamente o quadrado correspondente — um exemplo claro de mapeamento simbólico entre signo e cor, relatado por Tetsuro Matsuzawa, primatólogo ligado às pesquisas sobre memória de primatas.
Contrariamente ao que o nome poderia sugerir para leitores desavisados, Ai não tem relação com “inteligência artificial”: em japonês, seu nome significa “amor”. Sob essa luz, sua trajetória iluminou novos caminhos para a compreensão ética e científica do que nos une aos demais animais.
Além dos testes cognitivos, Ai revelou uma inclinação artística. Produzia desenhos com canetinhas sobre folhas brancas mesmo sem receber petiscos como recompensa, gesto que demonstra motivação intrínseca e aponta para dimensões estéticas da experiência animal. Em 2017, no 40º aniversário do Projeto Ai, um dos seus esboços serviu de inspiração para uma echarpe entregue a Jane Goodall — primatóloga que nos deixou em 1º de outubro de 2025 aos 91 anos — numa celebração do legado humano-animal.
Sua inteligência também se manifestou em episódios notáveis: em 1989, Ai, junto a outro chimpanzé, escapou da jaula ao abrir um cadeado com uma chave, libertando outro chimpanzé (Akira) e um orangotango (Doudou) — uma cena que evidenciou raciocínio prático e capacidade de manipulação de ferramentas.
Em 2000, Ai deu à luz Ayumu, que seguiu os passos da mãe e se tornou figura central em pesquisas internacionais sobre memória de curto prazo em primatas. Ao longo das décadas, a participação ativa de Ai nos estudos revelou aspectos inéditos da cognição chimpanzé e ajudou a semear inovações metodológicas no campo.
Para as equipes envolvidas, a partida de Ai representa a perda de uma interlocutora singular entre espécies, mas também o legado duradouro de conhecimento que ela ajudou a cultivar. Como curadora de histórias que iluminam nosso horizonte, vejo em Ai um símbolo de renascimento cultural: suas realizações continuam a nos inspirar a construir pontes éticas entre ciência, arte e bem-estar animal.
O adeus a Ai nos lembra que a investigação científica não só revela mecanismos da mente, como também nos convida a tecer laços de respeito. Seu percurso — da infância na África Ocidental aos laboratórios do Japão — permanece como um farol para estudos futuros, orientando novos projetos que busquem compreender e proteger a inteligência que floresce além do humano.
















