Por Marco Severini — Em uma manobra que redesenha linhas invisíveis no tabuleiro diplomático, o presidente americano lançou o Board of Peace, apresentado como mecanismo para coordenar a reconstrução de Gaza e promover a paz na região. O projeto, apelidado por alguns de “ONU de Trump”, promete centralizar poder decisório em Washington: será o próprio presidente dos EUA a convocar as reuniões, aprovar a agenda e selecionar — ou excluir — os participantes.
Do ponto de vista estrutural, o Conselho surge acompanhado por duas entidades complementares: um comitê palestino tecnocrático, encarregado de administrar temporariamente a Faixa de Gaza, e um executive board com função consultiva. Segundo a Casa Branca, o órgão se ocupará de tarefas que vão desde o fortalecimento de capacidades de governança e relações regionais até a atração de investimentos, financiamento em larga escala e mobilização de capital para a reconstrução da região — na prática, a implementação da chamada “fase 2”, um plano de 20 pontos resultante do acordo assinado em Sharm El-Sheikh, no último outono.
Há, porém, uma condição técnica e simbólica: a participação permanente exigirá uma contribuição de 1 bilhão de dólares. Mais do que um requisito financeiro, trata-se de um elemento que ressalta a natureza seletiva e hierarquizada da iniciativa: quem paga adquire influência, mas a influência final permanece nas mãos daquele que convoca o Conselho. A adesão terá duração prevista de três anos e o presidente americano manterá direito de veto sobre qualquer deliberação.
As incertezas sobre quem, de fato, integrará o fórum são numerosas. Amanhã, à margem do Fórum Econômico Mundial em Davos, está prevista a cerimônia de assinatura que formalizará a constituição do Conselho — um momento que pode tanto cimentar o projeto quanto expor suas fragilidades diplomáticas.
Convites foram extensos: de chefes de Estado como Giorgia Meloni, Narendra Modi, Luiz Inácio Lula da Silva e Recep Tayyip Erdoğan até entidades religiosas — o Vaticano confirmou ter recebido convite, e o cardeal Pietro Parolin disse que “o Papa recebeu o convite e estamos avaliando”. A lista inclui países de Norte a Sul do globo, do Paraguai ao Paquistão, mas as confirmações ainda são parciais.
Algumas negativas já chegaram: o Brasil, a Noruega e a Suécia declinaram até agora. Do lado europeu, a presença é tímida — e, em certos casos, ruidosa. A Alemanha rejeitou o convite; o Reino Unido analisa a proposta com cautela; o Palácio do Eliseu, representado pelo presidente Emmanuel Macron, ofereceu um “não” contundente, invocando a necessidade de “respeito diante de quem intimida” — fórmula que traduziu fricções diplomáticas em plena era pós-Groenlândia. Notavelmente, a lista incluiu também Vladimir Putin, o que acendeu contradições e desconfortos dentro de alguns aliados ocidentais.
A receita de Dahlia da diplomacia americana é, portanto, ambígua: por um lado, projeta uma plataforma para financiar e administrar a reconstrução de uma região devastada por dois anos de conflito; por outro, centraliza poder decisório em torno da Casa Branca, condicionando participação a critérios negociáveis e a uma contribuição econômica simbólica mas elevada.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro internacional: busca-se uma solução palatável para um problema humanitário, ao mesmo tempo em que se redesenha a arquitetura de influência no Oriente Médio. Se será um alicerce sólido para a reconstrução ou uma peça instável que agravarará divisões, dependerá da capacidade do novo órgão de agregar legitimidade, respaldo multilateral e transparência — virtudes que a diplomacia tradicional considera essenciais.
No curto prazo, a cerimônia em Davos será o teste público: ali se medirão não apenas assinaturas, mas o alcance das pressões, os compromissos financeiros e a disposição real dos Estados europeus de legitimar um mecanismo que centraliza nas mãos de um só ator poderes decisivos para a paz e a reconstrução. A tectônica do poder internacional, como num jogo de xadrez, exige movimentos precisos; neste início, muitos países ainda estão a calcular riscos e benefícios antes de revelar suas peças.





















