Por Stella Ferrari — As bolsas europeias foram, hoje, a um ponto de equilíbrio tênue após o discurso do presidente americano Trump no World Economic Forum, em Davos. O trecho mais salientado foi a afirmação de que não pretende usar a força para anexar a Groenlândia, o que atuou como um desanuviador temporário para os mercados, embora sem dissipar totalmente as incertezas.
O dia fechou em tom misto nos principais índices europeus: Milão registrou recuo de -0,50% e Frankfurt também fechou no negativo, enquanto Londres e Paris avançaram de forma cautelosa. Esse movimento espelha uma reação seletiva dos investidores, que calibraram posições sem promover um movimento uniforme: é como ajustar a calibragem do motor antes de exigir toda a potência.
No outro lado do Atlântico, Wall Street respirou aliviada. Depois das perdas das duas primeiras sessões da semana, os índices americanos retomaram o terreno positivo — com destaque para o Nasdaq, que ganhou mais de 1%. A recuperação tem caráter técnico e psicológico: a sessão funcionou como uma redefinição de rota do portfólio, com realocação entre tecnologia e setores cíclicos.
Também teve impacto a dinâmica das moedas e dos títulos: o declínio do dólar foi interrompido, e a moeda americana recuperou terreno frente ao euro, aproximando-se novamente de 1,17. Ao mesmo tempo, os rendimentos dos Treasuries americanos — tanto do prazo decenal quanto do trintenário — recuaram em um movimento de retracement, aliviando um pouco a pressão sobre ativos mais sensíveis a juros.
Uma nota que merece atenção estratégica é a trajetória do ouro, que continuou sua escalada e ultrapassou a marca dos US$4.800 por onça. Esse deslocamento para ativos de porto-seguro sugere que, apesar do aparente acalmar dos mercados, há apetite por proteção contra riscos geopolíticos e potenciais pressões inflacionárias — elementos que atuam como um freio e um acelerador simultâneos sobre decisões de alocação.
Em síntese, a sessão amplifica uma leitura que eu, como estrategista, costumo ressaltar: os mercados operaram hoje como um conjunto de sistemas interligados, onde sinais políticos em Davos ajustaram expectativas sem provocar um rearranjo estrutural imediato. A calibragem de juros, o percurso do dólar e o impulso no ouro são vetores a serem monitorados de perto nos próximos dias para avaliar a durabilidade da recuperação em Wall Street e a resiliência das bolsas europeias.
Como num design de alta engenharia, a economia precisa de ajustes finos — não apenas de acelerações abruptas. Investidores institucionais e gestores de riqueza vão preferir, por ora, manter posições seletivas e níveis de liquidez prontos para responder à próxima série de sinais macro e geopolíticos.






















