Por Giuseppe Borgo — Um episódio que põe à prova os alicerces da confiança entre o Estado e quem administra a lei: o programa Report exibiu provas de que um software espião instalado em milhares de terminais nos tribunais italianos pode permitir o controle remoto sem aviso ao usuário. A reportagem aponta que, desde 2019, cerca de 40 mil computadores de varas e procuradorias têm instalado o sistema ECM/SCCM, da Microsoft, usado para gerenciamento centralizado.
O Ministério da Justiça confirmou a existência do pacote de gestão, mas afirmou que a funcionalidade de acesso remoto estaria desativada por padrão e que, quando ativada, exigiria o consentimento do magistrado. A versão oficial chocou-se imediatamente com o teste prático exibido por Report: um juiz autorizou que um técnico externo entrasse em seu computador e, sem qualquer notificação visível, obteve controle total da máquina enquanto o magistrado observava.
O magistrado Aldo Tirone, do tribunal de Alessandria, aceitou colocar em teste o próprio desktop. Segundo a demonstração, o técnico navegou por pastas, abriu arquivos e operou o sistema sem que surgisse qualquer alerta na tela. A prova foi mostrada em vídeo por Sigfrido Ranucci na chamada para o programa que foi ao ar na noite deste domingo na Rai3.
Especialistas em segurança cibernética consultados por Report reforçaram a gravidade técnica: com privilégios administrativos, um operador pode reconfigurar o software, desabilitar avisos e manter o controle oculto. Além disso, as trilhas de auditoria — as evidências do acesso remoto — permaneceriam nos logs por um período muito curto, cerca de 10 minutos, antes de serem eliminadas, o que torna praticamente impossível detectar a posteriori invasões não autorizadas.
Em Roma, o caso escalou para a arena política. O Partito Democratico (PD) exigiu explicações e pediu a demissão do ministro Carlo Nordio. O próprio Nordio reagiu com veemência, negando que o ministério espione magistrados e classificando as acusações como “surreais”, chegando a responsabilizar Ranucci por criar “allarme sociale”. O ministro puxou o fio na direção contrária: acusação de calúnia e defesa da atuação ministerial.
Do ponto de vista institucional, a questão levanta dúvidas práticas e de princípio. O ECM/SCCM é uma ferramenta concebida para ambientes como quiosques e sistemas de pagamento, não para máquinas que abrigam processos cobertos por segredo de instrução. É como usar uma ponte rodoviária para transportar material inflamável sem reforçar suas estruturas: os riscos para os arquivos sensíveis são evidentes.
Report também recorda que, em 2024, a Procuradoria de Turim já havia alertado o Ministério sobre o problema, mas o caso foi declarado “arquivado” sem medidas visíveis. Testemunhos recolhidos pela reportagem sugerem procedimentos locais de gestão que deixaram fragilidades abertas.
Ao leitor cidadão, cabe perceber o alcance: não se trata apenas de um problema técnico, mas de um potencial desgaste dos mecanismos que protegem dados judiciais e a independência dos juízes. Em termos práticos, derrubar barreiras burocráticas significa também blindar as pontes digitais que ligam processos e pessoas — e quando o peso da caneta atinge um sistema falho, quem fica exposto é a própria administração da justiça.
O episódio exigirá respostas claras do Ministério, verificações independentes e, possivelmente, intervenções para substituir ou reconfigurar ferramentas inadequadas ao tratamento de informação sensível. Enquanto isso, a investigação jornalística cumpriu sua função de ponte entre a técnica e o interesse público: trazer à luz o que estava nos bastidores.
Giuseppe Borgo — Espresso Italia






















