Por Riccardo Neri — A infraestrutura oculta que sustenta cidades e campos mostra sinais claros de colapso: um relatório da ONU alerta que o uso e a contaminação das fontes hídricas já superaram sua capacidade de renovação. Estamos diante de uma falência hídrica global, um limite sistêmico que exige repensar políticas, agricultura e gestão urbana.
O estudo, coordenado por Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, mapeia perdas e declínios que têm efeito direto sobre a segurança alimentar, a saúde pública e a estabilidade socioeconômica. Madani afirma que “muitas regiões vivem acima de suas possibilidades hidrológicas e muitos sistemas hídricos críticos já estão em bancarrota”.
Dados-chave do relatório revelam tendências preocupantes: mais da metade dos grandes lagos mundiais perdeu volumes de água desde o início dos anos 1990; nos últimos 50 anos foram perdidos cerca de 410 milhões de hectares de zonas húmidas — área próxima à superfície da União Europeia. Além disso, cerca de 70% dos principais lençóis freáticos mostram tendência de declínio de longo prazo.
O impacto humano é tangível: aproximadamente 2,2 bilhões de pessoas ainda não dispõem de água potável gerida de forma segura, 3,5 bilhões não têm acesso a serviços de saneamento adequados, e quase 4 bilhões enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano. A pressão sobre a produção de alimentos é enorme: cerca de 70% dos volumes globais de água doce retirados são consumidos pela agricultura, que vê suas fontes de abastecimento esgotarem-se mais rápido do que conseguem se regenerar.
Do ponto de vista de infraestrutura, trata-se de um esgotamento do capital natural — recursos que funcionam como os alicerces invisíveis das cidades e das cadeias de produção. Não podemos simplesmente reconstruir geleiras desaparecidas nem restaurar lençóis compactados; o caminho é impedir perdas adicionais do que resta e reestruturar as instituições que administram o fluxo de água.
Em consonância com o relatório, representantes do WWF, como Alessi, pedem um “cambio de paradigma”: modelos de governança baseados em extração contínua tornam-se obsoletos quando a base física do sistema não se regenera. A resposta deve combinar políticas de conservação, inovação tecnológica para eficiência hídrica e incentivos para práticas agrícolas que reduzam o consumo de água por unidade de alimento.
Como analista, vejo este momento como uma janela crítica para renovação institucional. Precisamos tratar a água como infraestrutura estratégica — o sistema nervoso das cidades e das economias — em que decisões de planejamento urbano, redes de distribuição e inteligência de dados monitoram e regulam o fluxo com precisão. Medidas pragmáticas incluem gestão baseada em limites hidrológicos, tarifas que reflitam escassez real, e investimento em reúso e tecnologias de precisão para agricultura.
O relatório da ONU não é um apelo alarmista, mas um diagnóstico técnico: a vantagem está em agir com honestidade científica, coragem política e reformulação institucional. Só assim será possível conter a progressão da falência hídrica e preservar o que resta da capacidade regenerativa dos nossos sistemas de água.






















