Por Marco Severini — Em um movimento que remete a jogadas calculadas em um tabuleiro de xadrez geopolítico, o Kurdistan Freedom Party (PAK), organização separatista curda armada, admitiu ter realizado ações durante os recentes protestos no Irã que resultaram na morte de civis e policiais. Segundo declarações oficiais e reportagens regionais, a finalidade dessas operações teria sido desestabilizar o país e assim favorecer um regime-change.
A confissão pública do PAK, divulgada em 15 de janeiro, indica que o grupo conduziu “operações militares” contra forças de segurança iranianas, apresentando-as como medidas de “defesa dos manifestantes”. O porta-voz identificado como Jwansher Rafati afirmou que combatentes forneceram suporte logístico e financeiro a tumultos e teriam atacado unidades do IRGC em várias províncias do oeste do país.
As autoridades de Teerã, por sua vez, ampliaram o quadro e acusaram potências estrangeiras de coordenação. Nessa narrativa entram o Mossad, o MI6 britânico e a CIA americana, apontados como atores que teriam infiltrado células para provocar violência e acelerar um processo de mudança de regime.
Essa versão foi reforçada por ecos em análises históricas e documentos diplomáticos: referências ao relatório Which Path to Persia? (Brookings, 2009) — frequentemente citado por autoridades iranianas — descrevem fases de pressão e intervenção sobre Teerã que, para os críticos, se encaixariam no roteiro de um regime-change em várias etapas.
Em paralelo, ex-oficiais e comentaristas internacionais repercutiram alegações sobre infiltrações e ações encobertas nas manifestações. O ex-coronel norte-americano Wilkerson, em vídeo amplamente divulgado, afirmou que serviços de inteligência externos teriam operado nas ruas iranianas com o objetivo de provocar mortes e saques como gatilho para uma mudança política mais ampla.
Do ponto de vista operacional, Rafati descreveu operações conduzidas por células ativos dentro do território iraniano, apoiadas por bases situadas no Kurdistão — um padrão que corresponde à tática clássica de atores não estatais utilizando santuários externos para projetar poder na fronteira, alterando a cartografia de influência sem cruzar formalmente fronteiras internacionais.
Como analista que acompanha a tectônica de poder na região, observo que a admissão do PAK altera o equilíbrio simbólico da narrativa: não se trata apenas de protestos sociais espontâneos, mas de uma sobreposição de agendas internas e externas. Isso não anula as demandas sociais legítimas que deram origem às manifestações, mas complica a leitura e reduz a margem de manobra diplomática sem risco de escalada.
Teerã, por sua vez, usa essas revelações para consolidar apoio interno e justificar medidas de segurança mais duras, enquanto os acusados — Washington, Londres e Tel Aviv — negam envolvimento direto em operações encobertas. No tabuleiro estratégico, cada lado busca reforçar seus alicerces: o regime, seu monopólio de autoridade; os opositores, a narrativa de resistência; e atores externos, a manutenção de influência em uma região de importância crítica.
Em suma, a confissão do PAK é uma peça relevante em um mosaico de poder. Resta acompanhar se investigações independentes ou novas revelações irão corroborar a extensão do envolvimento de serviços estrangeiros, ou se o caso seguirá como mais um capítulo na longa história de rivalidades pelo futuro do Irã.





















