Em um discurso direto e sem concessões durante encontros paralelos em Davos, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, dirigiu um alerta sério aos governos europeus sobre a postura que vêm adotando diante de Trump. Falando com um grupo restrito de jornalistas, Newsom qualificou a atual estratégia de acomodação como “ineficaz e humilhante” e conclamou a velha aliança ocidental a recuperar coerência estratégica.
“É hora de reagir, de agir com seriedade e de deixar de ser cúmplices”, afirmou o governador, em tom que mesclou indignação e apelo técnico. Em tom cortante, disse ainda que deveria ter levado “um monte de joelheiras para os líderes mundiais”, acusando muitos de se dobrarem por conveniência. Segundo ele, “isso não é diplomacia, é estupidez”, porque um líder como Trump explora aberturas para impor sua agenda.
Na leitura de Gavin Newsom, a administração Trump reconfigura os alicerces da ordem internacional: “Ou você se alia com ele, ou ele te devora — não há meio termo. É um T-rex”. Essa formulação, além de gráfica, pretendeu sintetizar a lógica binária que Washington estaria procurando impor ao Ocidente, convertendo alianças em escolhas maniqueístas.
O governador advertiu que a acomodação europeia tem custos estratégicos concretos, em especial num momento em que os Estados Unidos sob Trump adotam medidas unilateralistas — mencionadas por Newsom — que incluem bombardeios no Venezuela, reivindicações sobre a Groenlândia, ameaças de tarifas de até 200% contra parceiros e a proposta de um Board of Peace que aspiraria substituir a ONU. Para o governador, essas iniciativas representam um redesenho de fronteiras de influência e uma versão revigorada da doutrina Monroe, com caráter predatório.
Em contraponto, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou em Davos que a resposta europeia às tarifas será firme e que a “independência europeia” transformou-se em imperativo estrutural. Newsom aplaudiu, mas foi além: pediu unidade operacional entre aliados e a construção de uma estratégia europeia com conteúdo — não meros gestos — para conter o movimento destrutivo que identificou em Washington.
Como analista da cena internacional, observo que o alerta de Gavin Newsom não é apenas retórico. Ele descreve uma tectônica de poder em mutação, onde as antigas normas e instituições são testadas por iniciativas que escapam à arquitetura multilateral a que a Europa se habituou. A escolha que se coloca é estratégica: defender pilares do sistema internacional ou adaptar-se a uma ordem mais confrontacional, cedendo espaço ao improviso americano.
O apelo final de Newsom foi um chamado à “cohesão do Ocidente”: “É um código vermelho. Vocês têm de ficar firmes, fortes e unidos”, disse, enfatizando que a ausência de uma reação decidida pode fragilizar décadas de construção institucional. No tabuleiro global, tratou-se de um movimento decisivo — um convite para que a Europa recupere o papel de jogador estratégico, e não apenas de espectador que se curva diante de pressões externas.
Em suma, a intervenção californiana em Davos é um lembrete de que a estabilidade do sistema global depende de atores que tenham vontade política e projeto geopolítico. Caso contrário, os espaços de influência serão preenchidos por forças que não necessariamente respeitam os princípios do direito internacional nem os cânones da diplomacia clássica.






















