WEF Davos tornou-se palco, nesta quarta-feira, de um discurso que altera o ritmo da diplomacia e redesenha pequenas linhas do tabuleiro internacional. Em sua intervenção no Fórum Econômico Mundial, Donald Trump voltou a colocar na mesa a proposta de iniciar “negociazioni immediate per acquisire la Groenlandia” — expressão por ele proferida em tom de aviso: “Se dite di no ce ne ricorderemo”. Ao mesmo tempo, o ex-presidente deslocou a responsabilidade do conflito na Ucrânia para a própria Europa, afirmando que é a União Europeia que deve “risolvere la guerra”.
O pronunciamento de Trump seguiu linha dupla: autopromoção do desempenho dos Estados Unidos e crítica severa ao estado atual do Velho Continente. “Siamo nel mezzo di una grande trasformazione del nostro Paese”, disse, assegurando que, sob sua liderança, não haveria mais inflação e que o país vivia um “miracolo economico”. O ex-presidente citou uma estimativa de crescimento de 5,4% e sustentou que os EUA são hoje “il motore economico del pianeta”.
Voltando-se à Europa, o tom foi cortante: “Alcuni posti in Europa francamente non sono neanche riconoscibili… Amo l’Europa, ma non sta andando nella giusta direzione”, afirmou, apontando para a questão da “immigrazione di massa non controllata” como um dos problemas que fragilizam as sociedades europeias. Para ele, os avanços americanos no padrão de vida poderiam servir de molde.
O anúncio sobre a Groenlândia tem forte carga simbólica e estratégica. Não se trata apenas de um desejo territorial; é um movimento tático que procura reposicionar influências no Ártico — uma região cuja importância geoestratégica cresce na medida em que derretem rotas marítimas e se reconfiguram recursos naturais. É um lance no tabuleiro que desafia os alicerces frágeis da diplomacia transatlântica.
Na linguagem da cartografia do poder, a proposta de compra reinventa fronteiras invisíveis e pressiona aliados a reavaliar prioridades: segurança energética, cooperação militar e logística polar. Simultaneamente, transferir a responsabilidade da guerra na Ucrânia para a Europa é uma manobra política destinada a deslocar custos políticos e lucros narrativos para parceiros históricos.
Do ponto de vista econômico, a retórica sobre o “boom” dos EUA e a eliminação da inflação visa consolidar uma imagem de governança eficaz e resistência macroeconômica — um argumento central para investidores reunidos em Davos. Geopoliticamente, é um lembrete de que, em circunstâncias de tensão, os movimentos decisivos no tabuleiro internacional podem vir acompanhados de propostas abruptas, destinadas a testar reações e renegociar posições.
Em suma, o discurso em Davos não foi apenas um acerto de contas doméstico; foi uma jogada de estratégia internacional. Resta aos atores europeus decidir se respondem com diplomacia calibrada, fortalecemento de coesão interna, ou se cedem terreno a uma redefinição das prioridades atlântico‑polares.





















