Por Marco Severini — A recente reconfiguração das rotas energéticas europeias revela um movimento decisivo no tabuleiro diplomático: a União Europeia, ao reduzir a demanda por gás em mais de 20% entre 2021 e 2024, materializou ganhos de eficiência, mas simultaneamente cavou novos alicerces frágeis. A transição rápida para o GNL importado dos Estados Unidos abre uma dependência estratégica que exige leitura geopolítica além das contas imediatas.
Formalmente, o bloco aprovou um cronograma juridicamente vinculante para eliminar importações de gás russo: um banimento gradual do GNL russo até o final de 2026 e a suspensão total do gás por gasoduto até o outono de 2027. Contudo, esse movimento não anula riscos; apenas os redesenha. Fontes e analistas apontam projeções em que as aquisições de GNL dos Estados Unidos podem chegar a até 115 bilhões de metros cúbicos por ano até 2030, o que corresponderia a aproximadamente 80% das importações de combustíveis do continente — uma tectônica de poder que desloca dependências sem removê-las.
Os números já sinalizam a tendência: as importações de GNL dos Estados Unidos saltaram de 21 bilhões de metros cúbicos (bcm) em 2021 para cerca de 81 bcm em 2025, quase quadruplicando. Em 2025, 57% do GNL importado pelos países da União Europeia teve origem estadunidense. Treze Estados-membros passaram a receber cargas americanas; Holanda, França, Espanha, Itália e Alemanha concentraram 75% desse fluxo transatlântico.
O acordo comercial firmado entre UE e Estados Unidos em julho de 2025 aprofundou esse alinhamento: a União comprometeu-se a adquirir cerca de 750 bilhões de dólares em energia norte-americana até 2028. Na prática, essa carta vinculante aproxima fornecedor e comprador num parceriastratégica — com implicações que vão além do custo imediato do combustível. Relatos nos bastidores indicam ainda práticas comerciais indiretas, como a compra e revenda de cargas russas via terceiros, circunstância que acrescenta complexidade ao mapa de dependências.
Do ponto de vista macroeconômico e de planejamento estratégico, há alternativas. O Instituto IEEFA calcula que os mesmos 750 bilhões de dólares, se aplicados em energias renováveis, permitiriam instalar cerca de 546 gigawatts combinados de capacidade solar e eólica — um investimento que reforçaria a segurança energética e reduziria a pressão sobre preços da eletricidade no longo prazo. Essa comparação coloca em evidência uma escolha de eixo: reforçar a rede de suprimentos por meio de um único fornecedor ou diversificar, fortalecendo fontes internas e desanuviando riscos geopolíticos.
A conferência Gastech em Milão, em setembro, testemunhou anúncios de novos contratos de fornecimento que podem ampliar ainda mais o fluxo americano de GNL para a Europa. É uma sequência previsível no jogo: ao cortar um fio de dependência, as potências deslocam o peso para outro. A questão é se essa nova cadeia trará estabilidade ou criará um novo ponto de vulnerabilidade.
Como numa partida de xadrez entre grandes potências, os movimentos energéticos europeus exigem visão de tabuleiro. A União optou por reduzir sua exposição direta à Rússia, mas, sem uma estratégia de arquitetura energética que priorize diversificação e investimentos estruturais em renováveis, corre o risco de trocar um apertão por outro — igualmente inconveniente, porém geograficamente deslocado. A estabilidade das relações de poder e a resiliência econômica da Europa dependem agora de decisões que equilibrem urgência tática e planejamento estratégico de longo prazo.






















