Marco Severini — Em mais um movimento que reacende antigas tensões geopolíticas, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou com veemência o acordo anunciado entre o Reino Unido e Mauritius para a devolução do arquipélago das Chagos, incluindo a ilha estratégica de Diego Garcia. A controvérsia, publicada em 20 de janeiro de 2026, combina política doméstica, aliados transatlânticos e a tectônica de poder que molda o Índico.
Num post divulgado na plataforma Truth, Trump qualificou a decisão britânica como ‘uma grande estupidez’, argumentando que a entrega de Diego Garcia — sede de uma base aérea de importância crítica, utilizada em parceria pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido — não apresenta justificativa plausível e exporia uma fragilidade estratégica. ‘Poderes como a China e a Rússia poderiam tirar vantagem dessa fraqueza’, escreveu o ex-presidente, repetindo a narrativa segundo a qual somente a demonstração de força garante respeito no concerto das nações.
A mensagem de Trump não foi meramente retórica. Ao vincular o episódio a uma agenda mais ampla — citando, inclusive, a prioridade por ele atribuída à aquisição da Groenlândia — o ex-líder traça uma cartografia expansionista que pretende redesenhar linhas de influência e garantir corredores estratégicos para Washington. Em postagens anteriores, ele já havia divulgado mapas e ideias que sugerem um reposicionamento geopolítico agressivo sobre territórios do Hemisfério Ocidental.
O governo do Reino Unido, por sua vez, respondeu com firmeza institucional. Em nota de Downing Street foi assegurado que a segurança e a operacionalidade da base conjunta US-UK em Diego Garcia ‘não estão em discussão’. Segundo o comunicado, o acordo — negociado sob a administração Biden — garante a manutenção das operações conjuntas por gerações e foi aprovado pelos membros do grupo Five Eyes (Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos), o que, na visão britânica, elimina riscos ao controle americano da instalação.
Há, no entanto, nuances que merecem atenção estratégica: entregar a soberania formal de um arquipélago onde se situa uma base crítica implica, por princípio, reconfigurar alicerces jurídicos e simbólicos do poder. Mesmo com garantias operacionais, a mudança altera percepções e cria possibilidades de pressão futura, sobretudo em cenários nos quais a rivalidade sino-russa encontre pontos de exploração política, econômica ou legal.
Do ponto de vista de um analista do tabuleiro global, o episódio revela um movimento decisivo e simultaneamente arriscado: o Reino Unido procura reafirmar princípios de justiça colonial e diplomacia multilateral ao devolver territórios, enquanto aliados estratégicos, por temor ou por cálculo, debatem o preço dessa correção histórica. Em xadrez, trata-se de uma jogada que concede espaço no centro do tabuleiro e exige de ambos os lados precisão para não perder material estratégico.
Em suma, a disputa em torno das Chagos e de Diego Garcia é mais do que um atrito entre personalidades; é um teste à resiliência das estruturas de aliança ocidentais e à capacidade de manter, sem fissuras, os corredores de projeção no Oceano Índico. A retórica de Trump busca traduzir essa preocupação em narrativa doméstica, enquanto Londres insiste que os mecanismos de segurança multilateral preservam os interesses militares compartilhados — pelo menos por ora.
Como analista, mantenho o olhar fixo no mapa: cada movimento legal e simbólico redesenha fronteiras invisíveis de influência. A coincidência entre correção histórica e cálculo estratégico exige prudência diplomática; os alicerces da estabilidade internacional são sólidos apenas até que se provem frágeis.






















