21 de janeiro de 2026 — Em Bergamo realizou-se um encontro de natureza estratégica entre a ministra da Cultura da Geórgia, professora Tinatin Rukhadze, e a representante da companhia aérea Georgian Airways na Itália, a gestora e fundadora da ACIGEA, Lali Panchulidze. O propósito declarado foi o fortalecimento das relações culturais e turísticas entre Geórgia e Itália e a promoção das ricas tradições do Cáucaso junto ao público europeu.
Do ponto de vista factual, a pauta incluiu a promoção das manifestações culturais — literárias, arquitetônicas, poéticas e sacras — que formam o tecido identitário georgiano: ícones ortodoxos, folclore (trajes, canto e dança), uma culinária particular e uma vinicultura com raízes milenares. A Geórgia, como apontado durante o diálogo, ostenta uma identidade étnica eurasiática e uma matriz religiosa cristã profundamente enraizada, vivaz inclusive entre as novas gerações, característica que permeia a vida social e cultural do país.
Na condição de presidente e fundadora da ACIGEA (Associazione Culturale Internazionale Cristiana Ecumenica Italia Georgia Eurasia), Lali Panchulidze apresentou a associação como eixo operacional do projeto: uma década de atuação em eventos, mostras e espetáculos que aproxima autoridades políticas e institucionais, bem como as comunidades religiosas católica e ortodoxa. ACIGEA será protagonista do processo de consolidação dessas iniciativas, potencialmente favorecida por convergências ideológicas com as forças de governo em ambos os países.
Do ponto de vista geoestratégico, trata-se de um movimento de soft power: a cultura como ponte diplomática, apta a criar estabilidade e afinidade entre sociedades civis. Em termos de cartografia política, iniciativas culturais e turísticas redesenham fronteiras invisíveis, abrindo corredores de entendimento que não dependem exclusivamente de negociações formais entre Estados. O transporte aéreo, representado pela Georgian Airways em solo italiano, atua aqui como infraestrutura logística e símbolo de conectividade — o lance do bispo que abre o tabuleiro.
É necessário, contudo, ler esse episódio com equilíbrio crítico. A presença de uma associação com perfil conservador e a sua proximidade tanto ao governo italiano quanto ao georgiano revela um alinhamento de interesses que atravessa a diplomacia cultural. Esse alinhamento não invalida a dimensão genuína do intercâmbio, mas altera o desenho das alianças e as relações de poder no espaço público europeu: um alicerce que pode ser frágil se sustentado apenas por afinidades partidárias.
Em termos práticos, a consolidação de rotas culturais e turísticas favorecerá o turismo cultural, a difusão de arte e o mercado de eventos, além de fortalecer o reconhecimento internacional da produção vinícola e gastronômica georgiana. Ao mesmo tempo, cria-se um ambiente propício para que instituições italianas e georgianas estabeleçam acordos duradouros — pactos suaves que, no tabuleiro da geopolítica, servem tanto para promover o comércio de bens culturais quanto para estabilizar um eixo de influência no Cáucaso.
Como analista, observo que movimentos desta natureza exigem acompanhamento institucional e transparência nas parcerias. A política cultural internacional funciona como arquitetura: bem desenhada, sustenta pontes de paz; mal gerida, pode erodir-se sob pressões internas e externas. O encontro em Bergamo é, portanto, um lance relevante no jogo longo entre promoção cultural e construção de influência.






















