Por Chiara Lombardi — Em um trabalho que parece brotar do espelho do nosso tempo, Ángela Molina entrega uma performance que reconfigura a ideia de fim: ela é Claudia, a atriz que escolhe partir ao ritmo de um flamenco decididamente provocante. No novo filme de Carlos Marqués-Marcet, Polvo Serán — italianizado como Polvere di stelle — a morte não chega em silêncio; chega em cena, com música, passos e uma grandeza que mistura riso e dor.
A imagem que permanece é a de uma mulher com cabelos longos grisalhos, riscado de prata, o olhar que desafia as rugas e um sorriso que ironiza o pálido do rosto: uma moribunda que, no entanto, decide sair de cena «a passo de flamenco». É uma escolha narrativamente arriscada e esteticamente luxuosa: Claudia enfrenta o tema do fim de vida como se ensaiasse o último espetáculo — e arrasta consigo todos aqueles que a cercam.
No palco cinematográfico criado por Marqués-Marcet, o drama e a comédia se entrelaçam com naturalidade, como acontece na vida real. A coreografia emocional do filme convoca não só a família — o companheiro de vida e de arte Flavio, interpretado por Alfredo Castro, e os filhos que reagem ao anúncio de duas partidas — mas também desconhecidos: passageiros de tram, transeuntes no parque, colegas de hospital. Esse coro humano vira corpo de dança com a companhia La Veronal, que empresta movimento físico às emoções suspensas.
Claudia decide pela eutanásia; Flavio, sem enfermidade aparente, prefere escolher o mesmo destino ao lado dela. A proposta causa choque, revolta e inquietação. Molina confessa que, inicialmente, foi difícil aceitar a ideia de uma “dupla morte”; depois viu ali um gesto radical de liberdade, algo que só pode ser compreendido por quem o pratica. Nessa passagem, o filme instiga o espectador a encarar uma pergunta ética e íntima — uma reverberação moderna da questão formulada por Sorrentino em La grazia: «De quem são os nossos dias?»
Em tom pessoal e quase documental, a atriz revela que, aos 70 anos, se viu novamente confrontada com o tema do fim de vida, depois de trabalhos recentes como Cosmos e Le dernier souffle. O enredo, porém, nunca se reduz a uma exposição temática: é antes uma grande história de amor, um «Romeu e Julieta de velhos», como ela descreve. O amor e a beleza são inseparáveis, e a perda transforma-se num refrão que não se apaga — a memória, como promete o nonno da atriz na lembrança que ela compartilha, continua a pulsar.
Há uma fala que atravessa o filme e a entrevista: a citação do poeta Quevedo, «Polvo serán, mas polvo enamorado», indica que há uma ternura cósmica na matéria que somos. Molina, que soma 50 anos de carreira, cinco filhos, quatro netos e um casamento de 32 anos com Leo, traz para a tela a experiência de quem viu perdas e permaneceu fiel ao afeto. O seu desempenho funciona, mais do que como expediente dramático, como um reframe da realidade: a morte torna-se, paradoxalmente, um ato de criação coletiva, um movimento coreografado que expõe a fragilidade e a dignidade humana.
Em festivais como Toronto, Valladolid e Roma, Polvo Serán já colheu prêmios e suscitou debates. O filme não oferece respostas fáceis; propõe uma experiência estética que obriga a pensar o lugar da autonomia, do amor e da arte no fim da vida. Assistir a Molina dançar com a morte é assistir ao próprio cinema como um espelho — um cenário de transformação onde a beleza não cancela o sofrimento, mas lhe dá forma e sentido.
Se a vida é um roteiro, Polvere di stelle reescreve o ato final com ousadia: não para confortar, mas para provocar. É cinema que incomoda e ilumina, que pede ao público que olhe além da cena e interroge suas próprias certezas.






















