Por Chiara Lombardi — Em um roteiro que mistura memória íntima e observação social, Daniele Gattano revela que seu lado mais cômico nasceu da coragem — ou do improviso — de transformar o próprio coming out em material de palco. A peça que inaugura essa nova fase parte do cotidiano e atravessa o espelho do nosso tempo: no dia 9 de fevereiro ele inicia a turnê do espetáculo «Perestrojka e Pancake», que consolida uma trajetória entre o erudito e o ultrassimples, com a elegância de quem sabe que o humor é um reframe da realidade.
Formado na vontade de ser ator de prosa, Gattano conta que, aos 18 anos, foi aceito no Teatro Stabile de Gênova, mas não teve a confirmação após um ano. Transferiu-se para Roma buscando o ofício, até descobrir os laboratórios de comédia do Zelig. A exigência inesperada — apresentar um monólogo — quase o fez desistir, não fosse a insistência de uma colega de apartamento que o convenceu a fechar a noite, para evitar a vergonha de abrir a apresentação.
O texto escolhido falava do episódio em que ele confiou a uma tia o segredo de sua orientação, pedindo sigilo; a tia, no entanto, contou tudo à mãe, que por sua vez informou o pai. Foi esse outing acidental que se transformou em seu primeiro material público. Hoje, uma década depois, Gattano confessa que, ao rever o monólogo, sente vergonha — “vomito”, como descreve — mas reconhece seu valor histórico: foi um dos primeiros a tratar o tema do coming out em programas como Colorado, ainda que muitas vezes escalado no horário tardio, por volta das 23h30.
O percurso de quem sonhava com o drama e acabou encontrando a fatura do riso também tem doses de pragmatismo: até 2024 trabalhou como garçom em um restaurante. Mantém laços — voltou a participar de um jantar com antigos colegas por cordialidade, “não se sabe nunca”, diz — e carrega a experiência do serviço como matéria-prima da observação social. Aldo Grasso chegou a chamá-lo de “bom demais para ser famoso”: um elogio às vezes contundente que traduz a ideia de um artista rigoroso e, simultaneamente, popular.
No palco, Gattano navega entre referências cultas e cultura pop com a mesma resposta didática: seja alguém que desconhece o Pamela Prati-gate ou quem nunca assistiu a Bellissima de Luchino Visconti, a saída é a curiosidade — recuperar, contextualizar, integrar. Como um crítico que usa o riso para mapear identidades, ele propõe um diálogo onde o público é convidado a preencher lacunas culturais.
Política e personalidade também entram no script. Em entrevista para Le Iene, observou que Giorgia Meloni lhe causa “ternura” por não se definir como homofóbica, refletindo sobre a dificuldade de aceitação como um fenômeno que atravessa espectros ideológicos — “é ruim não se aceitar”, afirma, apontando que negar rótulos nem sempre é sinônimo de abertura.
Com olhar quase cinematográfico, Gattano classifica tipos sociais com irreverência: divide as mulheres ricas entre um estereótipo “à Valeria Bruni Tedeschi” e outro “à Daniela Santanché”, confessando também sua própria inveja social diante de amigos que, apesar de aparente igualdade fiscal, de repente anunciam a compra de um imóvel. Esse contraste — a fachada e o roteiro oculto da vida — alimenta seu material com precisão estética.
Ao transformar o íntimo em um espelho público, Daniele Gattano não entrega apenas piadas; oferece um estudo sobre como narrativas pessoais reverberam na paisagem cultural contemporânea. Sua comédia é, antes de tudo, um exercício de memória e coragem: um roteiro que nos convida a revisar o que guardamos, o que dividimos e o que finalmente aceitamos.






















