Por Chiara Lombardi, Espresso Italia — Hoje o mundo da ópera celebra e pondera: Plácido Domingo completa 85 anos. Nascido em Madrid em 21 de janeiro de 1941, Domingo é a imagem — e por vezes o espelho controverso — de uma era de ouro vocal que atravessou o século XX e chegou ao presente com todos os seus paradoxos.
Filho de uma verdadeira família de artistas, nasceu no calor das zarzuelas espanholas. Seu pai, o barítono Plácido Domingo Ferrer (1907–1987), e sua mãe, a cantora de zarzuela Josefa Pepita Embil Echániz (1918–1994), deram-lhe um primeiro roteiro vocal antes mesmo de ele entender o enredo da vida pública. Em entrevista ao Corriere, Domingo recordou um episódio de infância: aos 5 ou 6 anos já imitava melodias que escutava; o primeiro registro emocional forte do canto, porém, veio aos 15, ao se acompanhar no piano — a mãe teria chorado diante da sua voz.
Na trajetória profissional, o nome de Domingo se conecta a momentos que se tornaram marcos culturais: ao lado de Luciano Pavarotti e José Carreras, formou os Três Tenores, um fenômeno que levou a ópera a estádios e transmissões globais, redesenhando o mapa da música erudita para além dos teatros tradicionais. Maestro, tenor e depois também barítono em alguns papéis, sua carreira é um espelho do repertório e das transformações do gênero operístico nas últimas décadas.
Mas a biografia pública de Domingo não é feita apenas de aplausos. Em 2019, acusações de natureza sexual surgiram e provocaram um ruído intenso no cenário cultural: as acusações de assédio abalariam sua imagem e desencadeariam consequências institucionais e debates profundos sobre poder, gênero e responsabilidade no ambiente artístico. Domingo negou a maior parte das alegações como intenção deliberada, ao mesmo tempo em que apresentou pedidos de desculpas por comportamentos que foram percebidos como inadequados. O episódio é, para a crítica cultural, um ponto de inflexão — um reframe da narrativa pública sobre ícones que habitam tanto o prestígio quanto a crítica.
Ao lado dele, a figura de sua companheira muitas vezes aparece como contraponto e suporte: Marta Domingo (nascida Marta Ornelas), soprano e diretora de cena, tem sido presença constante em sua vida pessoal e artística. Marta traz para essa história dimensões de parceria criativa e de palco — lembrando que a ópera é sempre um trabalho de equipe, um cenário de transformação onde vozes se encontram e se respondem.
Sete pontos para entender o homem por trás do nome (um pequeno “set list” biográfico): infância em casa de zarzuela; descoberta precoce da voz; carreira internacional e repertório vasto; os Três Tenores e a popularização da ópera; atuação também como maestro e diretor; as acusações de 2019 e suas repercussões; a parceria com Marta e a centralidade da família artística.
Celebrar Plácido Domingo aos 85 é, portanto, ler o roteiro completo: talento e legado, mas também polémicas que forçam uma revisão do offstage. A sua história continua a ser um estudo do tempo — um mapa onde a memória musical encontra o contexto histórico e social, interrogando não só o que foi cantado, mas o que o canto revelou sobre quem somos.






















