Portugal entrou nas manchetes europeias depois que o semanário Expresso, citando dados da plataforma EuroMOMO, apontou uma sequência de 30 dias com taxa de mortalidade acima do esperado. Os números se agravaram no início do ano: foram mais de 500 óbitos diários, com pico de 540 mortes em 2 de janeiro — um excesso de mortalidade de 52% naquele dia. Nos últimos dias de 2025, Portugal chegou a ser o único país europeu a registrar excesso de mortalidade em uma semana.
A Direção-Geral da Saúde portuguesa, em resposta ao Expresso, atribuiu esse quadro a uma combinação de fatores: as baixas temperaturas e uma epidemia de gripe que, segundo o órgão, começou mais cedo do que o habitual, no fim de novembro. De acordo com a mesma fonte, a circulação do subtipo H3N1, com maior impacto na letalidade, e a rápida transmissão entre idosos aumentaram a vulnerabilidade das faixas etárias mais avançadas.
Essa leitura oficial toca nos ciclos sazonais que conhecemos bem: o corpo tem um tempo interno que respira ao ritmo das estações, e o frio pode agigantar velhos males. Mas as imagens se tornam mais distintas quando atravessamos fronteiras e chegamos às observações locais. Em Castiglion Fiorentino, na província de Arezzo, o prefeito relatou 14 óbitos nos primeiros 10 dias do ano, algo que lhe pareceu inédito. A reação — surpresa e busca por explicações — é compreensível quando a cidade sente a respiração mais curta da comunidade.
Permita-me uma observação pessoal: também noto, nos meus percursos cotidianos, uma alteração do panorama funerário. Onde antes havia um ou dois ritos por semana, agora temos frequentemente um ou dois por dia. Muitos casos são de pessoas jovens, mortes súbitas ou doenças que correm com velocidade. Não é apenas uma sensação — é uma colheita de sinais que nos pede interpretação cuidadosa.
É aqui que a notícia se abre para interpretações divergentes e para debates que frequentemente saem das páginas técnicas e entram no espaço público. Se aceitarmos, sem ressalvas, que tudo é culpa do frio, parte de uma narrativa mais ampla sobre padrões climáticos e saúdes sazonais mantém sua coerência. Mas se o aquecimento global for excluído como fator determinante — como o autor original sugere —, outras explicações reaparecem e, com elas, hipóteses mais controversas.
O texto que inspirou esta reportagem apresenta uma hipótese firme: que a vacina anti-COVID estaria por trás do aumento de doenças e mortes observadas nos últimos anos. Essa é uma afirmação carregada de implicações e que merece ser tratada com cautela. Importa frisar que, até o momento, não há consenso científico que estabeleça uma relação causal comprovada entre as campanhas de vacinação e um aumento generalizado da mortalidade em países europeus. A alegação, portanto, permanece como uma hipótese contestada e objeto de debate público e científico.
Enquanto isso, vemos autoridades de saúde pública — em Portugal e além — destacando fatores conhecidos: uma gripe intensa, a circulação do subtipo H3N1, e as temperaturas frias que afetam especialmente os mais velhos. Na paisagem do bem-estar comunitário, essas são explicações que conversam com a fisiologia das estações: o inverno ofega sobre os sistemas frágeis, a gripe encontra terreno e a cidade sente suas raízes abaladas.
Minha proposta como observador atento não é encerrar o debate, mas convidar à prudência e ao olhar conjunto. Precisamos de investigações epidemiológicas rigorosas, de transparência nos dados e de um diálogo que não substitua a dúvida científica por certezas rápidas. Ao mesmo tempo, cabe à comunidade cuidar dos mais vulneráveis como se cada fragilidade fosse uma muda preciosa a proteger — porque a saúde coletiva é o jardim que sustentamos todos os dias.
Em suma: há fatos confirmados — o excesso de mortalidade em Portugal, o pico nos primeiros dias do ano e a circulação de H3N1 — e há interpretações em disputa. Acolhamos os dados, exijamos estudos claros e, sobretudo, preservemos a delicadeza do convívio humano em tempos de incerteza.





















