Por Riccardo Neri — Em pesquisa publicada na revista PLOS Biology, cientistas do Trinity College Dublin ofereceram evidências de que a perda quase total das lembranças da primeira infância — conhecida como amnésia infantil — não é um colapso passivo da memória, mas um processo ativo mediado pelas células imunes do cérebro: as microglia.
Usando modelos murinos, o grupo demonstrou que inibir a atividade das microglia em filhotes impede a ocorrência típica da amnésia infantil e melhora a retenção de experiências vividas nos primeiros dias de vida. As microglia, reconhecidas como as principais células imunes do sistema nervoso central, desempenham papel estrutural no pôr em ordem das conexões neuronais durante o desenvolvimento. Este estudo avança ao posicionar as microglia como agentes ativos na dinâmica entre lembrança e esquecimento.
Metodologicamente, os pesquisadores inibiram a função das microglia em roedores neonatos e testaram sua capacidade de lembrar um evento associado ao medo. Paralelamente, mapearam a ativação microglial no giro denteado do hipocampo e na amígdala, duas estruturas centrais à formação e evocaçãode memórias emocionais. A supressão da atividade das microglia resultou em menor marcação de ativação nessas áreas e em melhor desempenho de memória pelos animais jovens.
Para relacionar a alteração comportamental a um substrato celular, os autores usaram marcadores fluorescentes para identificar as chamadas células engrama — neurônios que fisicamente codificam traços de memória. Nos indivíduos com microglia inibidas, as células engrama exibiram maior responsividade, fornecendo um elo funcional entre a ação microglial e a preservação da lembrança.
Estudos prévios do mesmo grupo já haviam mostrado que filhotes originados de mães com ativação imunológica sistêmica não desenvolvem a típica amnésia infantil. No trabalho atual, ao modular a atividade das microglia logo após o nascimento nessas crias, os investigadores restabeleceram o padrão normal de esquecimento, reforçando a hipótese causal do papel microglial.
Como sintetiza Erika Stewart, primeira autora, “as microglia podem ser vistas como verdadeiros ‘gestores da memória’ no cérebro”. Tomás Ryan, autor sênior, pondera que a amnésia infantil é provavelmente a forma mais difundida de perda de memória na população humana e que, por muito tempo, seu caráter funcional — em vez de defeituoso — foi subestimado. Em outras palavras, o esquecimento parece ser um recurso arquitetural do sistema nervoso, não apenas uma falha.
Do ponto de vista de infraestrutura biológica, podemos comparar essa dinâmica a um sistema de armazenamento urbano: memórias iniciais são registradas, mas o “gerente” do arquivo — aqui representado pelas microglia — reorganiza ou suprime entradas para manter a eficiência das redes neurais em desenvolvimento. Essas camadas de regulação garantem que o “fluxo de dados” entre neurônios permaneça funcional e escalável, evitando uma sobrecarga de informações irrelevantes para o cérebro adulto.
As implicações desse trabalho são múltiplas. Além de ampliar a compreensão sobre como memórias formam-se e são descartadas, abrem caminho para investigar se processos microgliais semelhantes contribuem para outros tipos de esquecimento — por exemplo, aqueles observados em doenças neurológicas. Como sempre, transpor achados de modelos animais para o humano exige cautela, mas a analogia entre gestão microglial e manutenção de infraestrutura neural é um quadro conceitual útil para futuras pesquisas.






















