Por Marco Severini — Em um novo e perturbador movimento no tabuleiro ferroviário espanhol, um trem da linha 4 das Rodalies regionais da Catalunha colidiu contra um muro de contenção entre Gelida e Sant Sadurní d’Anoia, na província de Barcelona. O choque resultou na morte do motorista do convívio e deixou pelo menos 15 pessoas feridas, entre as quais três em estado grave, informou a Proteção Civil da Generalitat. O balanço ainda é provisório.
Fontes oficiais relatam que o muro de contenção teria desmoronado no momento da passagem do trem, hipótese inicialmente atribuída às fortes chuvas que atingiram a região nas últimas horas. No local, atuam cerca de quinze ambulâncias e onze equipes de bombeiros; o número de emergência 112 recebeu 28 chamadas relacionadas ao incidente.
Em um padrão de réplicas que lembra a tectônica de poder das rotas ferroviárias, esta ocorrência se soma a outro descarrilamento ocorrido terça-feira à noite na Catalunha: um trem da linha R1 das Rodalies, entre Maçanet-Massanes e Tordera, chocou-se com uma rocha caída sobre os trilhos em consequência de uma tempestade. Nesse segundo episódio, o trem transportava dez passageiros e não houve registro de feridos.
Esses novos episódios chegam apenas dois dias após o grave acidente em Andaluzia, que resultou no descarrilamento de dois trens próximo a Adamuz, em Córdoba. As autoridades confirmaram que o número de mortos subiu para 41 nesse desastre — o mais grave ocorrido na Espanha desde 2013 — e 39 pessoas permanecem hospitalizadas, 13 delas em terapia intensiva, entre elas um menor.
Em resposta à tragédia da semana, o governo espanhol decretou três dias de luto nacional. O primeiro-ministro Pedro Sánchez afirmou durante visita a Adamuz que o país vive “um dia de dor” e prometeu investigação rigorosa e “absoluta transparência” na apuração das causas.
O acidente de domingo envolveu um trem da operadora Iryo em viagem de Málaga a Madrid, que teria descarrilado perto de Adamuz, cruzando para a via contrária e colidindo com um trem que vinha em sentido oposto. Diferentemente do episódio de 2013, esse descarrilamento ocorreu em trecho retilíneo e com velocidades dentro dos limites regulamentares. Fontes investigativas consideram praticamente excluída a hipótese de erro humano ou excesso de velocidade, tornando o incidente “extremamente estranho”.
As linhas de investigação apontam para duas grandes frentes: um problema no material rodante da Iryo e/ou uma falha infraestrutural. Ambos os vetores exigem análises técnicas aprofundadas, de forma que a resposta não será apenas forense, mas também estratégica: trata-se de avaliar onde os alicerces frágeis da diplomacia técnica e da gestão de infraestrutura precisam ser reforçados.
Importa recordar que a Espanha possui a maior rede ferroviária de alta velocidade da Europa, com mais de 3.000 quilômetros de linhas dedicadas. Numa perspectiva geopolítica e de segurança operacional, os recentes episódios expõem riscos sistêmicos: eventos meteorológicos extremos testam a robustez da infraestrutura e impõem um redesenho das prioridades de investimento e governança.
Enquanto as equipes de emergência atuam e as investigações prosseguem, a prioridade imediata é a atenção às vítimas e às famílias atingidas. No médio prazo, será necessário um exame profundo das condições de manutenção, da interoperabilidade entre operadores e do impacto das mudanças climáticas sobre um sistema ferroviário que é, em muitos trechos, a espinha dorsal da mobilidade espanhola.
Num sentido estratégico, a sequência de acidentes demanda uma leitura que vá além da técnica: trata-se de preservar a confiança pública nas rotas vitais do Estado, um movimento decisivo no tabuleiro onde infraestrutura e legitimidade se cruzam. Só com transparência e medidas concretas será possível restaurar a estabilidade das rotas e evitar que novas réplicas se transformem em crise permanente.






















