Por Marco Severini — Em um episódio que lembra um movimento tenso no tabuleiro diplomático, o voo presidencial dos Estados Unidos sofreu um contratempo técnico antes da viagem a Davos. Problemas elétricos na aeronave original obrigaram o presidente Trump e sua comitiva a retornar à Joint Base Andrews, trocar de avião e decolar cerca de duas horas e meia após a partida prevista. A Casa Branca descreveu a parada como um “excesso de cautela”; o Air Force One alternativo partiu pouco depois das 05:00 GMT.
Mesmo diante do atraso, Trump prosseguiu com a narrativa política. Pelo seu canal na plataforma Truth publicou: “A América será bem representada em Davos. Deus abençoe a todos”. Ao embarcar, disse aos jornalistas: “Será uma viagem interessante. Não tenho ideia do que acontecerá” — uma declaração que, dada a agenda, soa menos como ingenuidade e mais como aviso calculado.
O centro das atenções é a Groenlândia. O presidente americano transformou a vasta ilha autônoma dinamarquesa em peça-chave de sua estratégia: alegando que o território é rico em minerais e vital para a segurança dos Estados Unidos e da OTAN frente à concorrência da Rússia e da China no Ártico, elevou a retórica e prometeu encontros bilaterais sobre o tema durante o Fórum Econômico Mundial. Questionado sobre até onde estaria disposto a ir para obter influência sobre a ilha, respondeu laconicamente: “Você vai descobrir” — frase que interrompe o véu diplomático habitual e projeta um movimento definitivo no tabuleiro da política externa.
As declarações geraram uma reação imediata em Brasília da Europa. A proposta implícita de realinhamento territorial e de interesses estratégicos suscitou respostas duras: o presidente francês Emmanuel Macron advertiu contra tentativas de “subordinar a Europa” e classificou as ameaças como “inaceitáveis”, enquanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou para o risco de uma espiral descendente nas relações transatlânticas.
Além do confronto de palavras, houve pressão econômica: a administração americana chegou a afirmar que poderia impor novas tarifas de até 25% sobre produtos de oito países europeus que apoiassem a Dinamarca — um gesto coercitivo que prontamente provocou menções a retaliações por parte da União Europeia. No Fórum, representantes europeus prometeram uma resposta “inflessível”.
No meio desse redesenho de eixos de influência, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, teve um momento enfático no palco de Davos, recebendo aplausos por reafirmar o apoio de Ottawa à Dinamarca e à Groenlândia. Sua observação sobre a necessidade de potências médias agirem em conjunto — “se não estamos à mesa, estamos no menu” — resume a ansiedade de capitais que tentam preservar alicerces frágeis da diplomacia num cenário de tectônica de poder acelerada pelo derretimento polar.
O discurso de Trump no Fórum, programado para as 14h30 (13h30 GMT), e os encontros paralelos prometem transformar uma visita diplomática em um teste prático das relações transatlânticas. Para observadores de longo curso, não se trata apenas de minerais ou de territórios: é um cálculo estratégico sobre rotas marítimas emergentes, capacidades militares no Ártico e o equilíbrio entre soberania e influência.
Como analista, vejo a iniciativa americana como um lance de alto risco — potencialmente eficaz se for parte de uma arquitetura de segurança coerente, mas capaz de fragmentar alianças se tratada como imposição. A partir de Davos, as potências europeias têm agora a oportunidade de responder com coesão; se fracassarem, a erosão das bases da coordenação transatlântica poderá abrir caminhos para concorrentes que aguardam, como peças prontas para avançar quando o tabuleiro se desordenar.






















