Há três datas que, na Itália e em boa parte do imaginário popular, funcionam como um pequeno rito coletivo: 29, 30 e 31 de janeiro. Conhecidos como os Dias da Merla, esses dias são tradicionalmente apontados como os mais frios do ano. Mas a pergunta que se repete todo final de janeiro é a mesma: como será este ano?
Para responder, precisamos tecer fios entre lenda e ciência. A fábula se entrelaça com explicações meteorológicas sobre inversão térmica, enquanto os registros de temperatura e o debate sobre o aquecimento global trazem um pano de fundo que mostra: janeiro não é mais exatamente o que costumava ser — e isso não é apenas uma sensação.
Segundo a tradição popular, os três dias finais de janeiro seriam os mais gélidos do calendário. No entanto, as séries estatísticas observadas indicam outro padrão: após a primeira década de janeiro costuma-se notar um leve aumento das temperaturas médias. A própria sabedoria popular cria um oráculo simples e encantador: se os Dias da Merla forem amenos, o inverno pode ainda perdurar; se forem muito frios, a primavera poderá chegar mais cedo.
As narrativas sobre a origem da lenda são variadas e atravessam gerações. A versão mais difundida, contada às crianças, descreve uma merla que, para proteger seus filhotes do rigor de janeiro, se escondeu dentro de um chaminé. Quando saiu, no início de fevereiro, as aves estavam pretas pela fuligem — e assim teria nascido a explicação popular para as penas escuras dos merlos.
Outra versão atribui o episódio a um mês de janeiro travesso: a merla teria reunido mantimentos para 28 (ou 29) dias e só saiu ao final do mês, até que janeiro, irritado, pediu a fevereiro três dias emprestados para castigar o pássaro. Essas histórias, ricas em imagem e humanidade, ilustram como cultivamos narrativas para entender o clima e o futuro.
Há ainda relatos históricos que ligam a tradição ao rio Pó. Em textos do século XVIII, como a coletânea do estudioso Sebastiano Pauli, encontram-se descrições de épocas em que o rio ficava tão congelado que se podia atravessá‑lo a pé — ou até transportar um canhão pesado chamado «merla» sobre o gelo. Outra variante menciona a nobre De Merli que teria cruzado o rio a pé. Essas memórias do passado nos lembram de um horizonte climático diferente, agora atravessado por evidências de aquecimento e mudança.
Como curadora de histórias e tendências, a Espresso Italia convida o leitor a contemplar essa fábula sob duas luzes: a da beleza simbólica — que nos ajuda a semear inovação cultural e a iluminar novos caminhos de diálogo — e a da realidade científica, que pede atenção ao comportamento das temperaturas e ao legado que estamos construindo para o clima.
Em suma, os Dias da Merla permanecem uma bela tradição popular, um espelho onde esperança, memória e ciência se encontram. Mas para entender se serão mesmo os dias mais frios é preciso olhar os dados, perceber as inversões térmicas, medir tendências e, sobretudo, reconhecer que o clima atual traz consigo histórias antigas e desafios novos — e que cuidar desse legado é uma forma de cultivar valores para o futuro.






















