Por Marco Severini – Em mais um movimento que redesenha linhas imaginárias no tabuleiro geopolítico, o presidente Trump reafirmou, de forma categórica, o interesse dos Estados Unidos em assumir o controle da Groenlândia. Falando a jornalistas em Miami, depois de assistir a uma final universitária de futebol americano, o mandatário descreveu a possessão do território como uma necessidade estratégica: "Não acredito que se oporão muito. Devemos tê-la", afirmou.
Na sua argumentação, Trump questionou a capacidade de defesa do Estado que hoje administra a ilha e enalteceu o povo dinamarquês: "A Dinamarca é um povo maravilhoso, e sei que os líderes são pessoas muito boas, mas eles não a defendem adequadamente". Traçando um raciocínio que mistura narrativa histórica e realpolitik, o presidente acrescentou que a chegada de navios há cinco séculos não confere necessariamente um "direito de propriedade" eterno, e concluiu que a questão será debatida com as partes interessadas.
O posicionamento ganhou corpo também nas redes do presidente: um post no Truth apresentou um fotomontagem de Trump com uma bandeira estadunidense, ladeado pelo vice-presidente JD Vance e pelo secretário de Estado, Marco Rubio, acompanhado do letreiro "Groenlândia, território dos EUA desde 2026". A mensagem funciona como sinalização política e testagem de percepção pública, uma jogada clássica de quem move peças para avaliar reações no tabuleiro internacional.
Paralelamente, o presidente declarou que convocará uma reunião em Davos com diferentes líderes sobre a questão da Groenlândia. Segundo o próprio, teve "uma ótima ligação" com Mark Rutte, referido como secretário-geral da Otan no seu relato, e aceitou promover um encontro das partes na Suíça. A retórica é firme: a ilha é, nas suas palavras, "imperativa para a segurança nacional e mundial".
Além do tema ártico, a agenda de partida para o Fórum Econômico Mundial ficou marcada por outra declaração de grande impacto: Trump disse ter convidado o presidente russo Vladimir Putin a integrar um chamado "Conselho da Paz" que supervisionaria a reconstrução de Gaza. A intenção, se confirmada, altera a tectônica de poder regional ao integrar Moscou de forma oficial num mecanismo multilateral sobre a Faixa de Gaza.
Na mesma toada, o presidente reagiu à recusa do presidente francês Emmanuel Macron em aderir ao Conselho, minimizando a ausência e até ameaçando retaliações comerciais: "Ninguém o quer… Aplicarei uma tarifa de 200% sobre seus vinhos e champanhes, e ele vai aderir", disse, numa mistura de pressão econômica e diplomacia coercitiva.
Por fim, já embarcando para Davos, Trump comentou também sobre o Prêmio Nobel, desdenhando da sua importância pessoal após receber uma indicação simbólica: "Não me importa o Nobel", disse, referindo-se à entrega do prêmio por parte da líder da oposição venezuelana Maria Corina Machado durante visita à Casa Branca. A fala evidencia a instrumentalização simbólica de prêmios e homenagens num cenário onde prestígio e influência se sobrepõem ao direito e à prática diplomática.
Como diplomata da informação, observo que cada declaração traduz um movimento calculado no grande xadrez internacional: a reivindicação da Groenlândia é, acima de tudo, tentativa de reposicionar os alicerces da segurança norte-americana no Ártico; o convite a Putin para o "Conselho da Paz" por Gaza busca reconfigurar e legitimar novos eixos de influência; e as ameaças comerciais a Paris lembram que a arquitetura econômica continua a ser arma de negociação.
Resta ver como aliados tradicionais reagirão a essas movimentações — se como peões resignados ou como peças que ainda podem bloquear avanços estratégicos. No entremeio, a diplomacia terá de reerguer alicerces frágeis, enquanto o tabuleiro global readapta suas coordenadas.






















