Por Stella Ferrari — Em mais uma marcha à ré demográfica, a China atingiu em 2025 o seu nível mais baixo de nascimentos desde o início das estatísticas em 1949, evidenciando uma reversão estrutural de longo prazo que afeta o motor do crescimento interno.
Os dados do Escritório Nacional de Estatística mostram que as nascimentos caíram para 7,92 milhões no ano passado, o equivalente a 5,63 por 1.000 habitantes — uma queda de 17% em relação aos 9,54 milhões de 2024. A população total foi estimada em 1,405 bilhão, com uma redução de 3,39 milhões no ano, enquanto os óbitos aumentaram de 10,93 milhões em 2024 para 11,31 milhões em 2025.
Dez anos após o fim oficial da política do filho único — abolida em 2016 — as tentativas de reverter a trajetória demográfica não deram a aceleração esperada. Fatores socioeconômicos e culturais estão no cerne desse fenômeno. Criar um filho nas áreas urbanas tornou-se um investimento de longo prazo: estudos do YuWa Population Research Institute apontam que o custo médio para educar uma criança até os 18 anos na China é de cerca de 538.000 yuan (aproximadamente 66 mil euros), ou mais de 6,3 vezes o PIB per capita — bem acima das 4,11 vezes dos Estados Unidos e 4,26 vezes do Japão.
Essa equação de custos pressiona a decisão reprodutiva e limita o potencial de expansão do consumo interno, um componente essencial para reduzir a dependência das exportações como motor do crescimento. Apesar da resiliência demonstrada pelo PIB chinês — alinhado à meta de cerca de 5% — e apesar das medidas tarifárias externas, analistas mantêm preocupação com a fraqueza na demanda doméstica em um quadro de pressão deflacionária e estrutura de crescimento desigual.
Outro indicador antecipador do declínio nas futuras nascimentos é o comportamento matrimonial: os registros de casamentos recuaram cerca de 20% em 2024, totalizando pouco mais de 6,1 milhões de uniões frente aos 7,68 milhões de 2023, o declínio mais acentuado já documentado.
Em reação, Pequim lançou um pacote de incentivos para estimular a natalidade, alocando aproximadamente 90 bilhões de yuan (cerca de 11 bilhões de euros) para subsídios de assistência à infância. Entre as medidas, foi oferecido um bônus que corresponde a aproximadamente 450 euros por criança com menos de três anos e benefícios fiscais relacionados à maternidade e paternidade. No entanto, algumas iniciativas geraram controvérsia — como a nova tributação de 13% sobre contraceptivos, incluindo preservativos e pílulas — que suscitou debates sobre coerência e impacto social das políticas.
Do ponto de vista de política econômica, a situação exige uma calibragem fina: estímulos direcionados ao alívio dos custos familiares e políticas habitacionais e educacionais robustas podem funcionar como injeção para reequilibrar a demanda interna. Sem isso, a China poderá ver seus indicadores demográficos operarem como freios fiscais e sociais, exigindo um redesenho de políticas que una inovação social e incentivos econômicos.
Em resumo, o episódio demográfico chinês é um desafio multifacetado: não se trata apenas de números, mas da arquitetura de incentivos que molda decisões familiares. Para investidores e formuladores de políticas, o sinal é claro — a economia precisa de estratégia tão refinada quanto o design de um motor de alta performance para recuperar impulso sustentável.






















