Por Marco Severini, Espresso Italia — Em mais um movimento de pressão que altera o equilíbrio político do dia, cerca de 4 mil manifestantes e aproximadamente 750 tratores convergiram em Strasburgo para protestar contra o acordo UE‑Mercosur. A mobilização, organizada por sindicatos agrícolas franceses e por delegações estrangeiras, atingiu o Parlamento Europeu justamente quando os eurodeputados se preparam para votar — amanhã — o envio do acordo de livre comércio com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai à Corte de Justiça da União Europeia.
As ruas foram ocupadas por faixas e cânticos que não poupavam a liderança europeia: “Ursula vai a casa”, “Stop al Mercosur” e ataques diretos ao comissário europeu à Agricultura, Cristophe Hansen. A mensagem é clara: a base agrícola europeia não aceita um acordo que, em sua avaliação, desestabiliza regras sanitárias e concorrenciais já estabelecidas.
Entre as organizações presentes destacaram‑se Coldiretti e Confagricoltura. A delegação italiana, segundo fontes das entidades, foi a segunda em número de participantes, atrás apenas da francesa — sinal de que a inquietação atravessa fronteiras e forma um eixo de resistência transnacional.
O presidente da Coldiretti, Ettore Prandini, declarou em praça pública: “Queremos garantias sobre a qualidade do produto e, sobretudo, que os alimentos importados respeitem exatamente as mesmas características e regulamentos aos quais são submetidas as nossas empresas”. Em termos diplomáticos, Prandini pede coerência regulatória: não aceitar acordos que criem assimetrias entre produtores internos e externos.
Na mesma linha, Massimiliano Giansanti, presidente da Confagricoltura e do Copa, afirmou que a mobilização é a continuação de protestos iniciados em dezembro, em Bruxelas. Para Giansanti, é crucial que a União Europeia mantenha o seu compromisso com o setor primário, assegurando recursos que garantam a segurança alimentar e a sustentabilidade do modelo agrícola europeu.
O Movimento 5 Stelle enviou uma delegação de eurodeputados ao ato. O representante Gaetano Pedullà caracterizou o voto que se aproxima como “um voto contra o Mercosur” e reforçou que a agremiação continuará a defender os interesses dos agricultores e a segurança alimentar, considerando o acordo uma ameaça potencial ao setor estratégico.
Do ponto de vista da estratégia geopolítica, a cena em Estrasburgo é um movimento num tabuleiro múltiplo: há uma tentativa clara de condicionar o voto parlamentar e, ao mesmo tempo, de interrogar os alicerces da diplomacia comercial da UE. O conflito não é apenas técnico — sobre tarifas ou sanitização —, mas também simbólico: trata‑se de preservar regras e padrões que definem a identidade econômica e a soberania alimentar da Europa.
Enquanto os tratores se retiram e as delegações se reorganizam, permanece a sensação de um redesenho — ainda que incipiente — das fronteiras invisíveis entre interesses setoriais e prioridades diplomáticas. A votação de amanhã será, portanto, um movimento decisivo no tabuleiro: não apenas para o futuro do acordo com o Mercosur, mas para a coerência da política comercial da União Europeia.
Segue-se a expectativa: se o Parlamento encaminhar o acordo à Corte de Justiça, abre‑se uma nova fase jurídica e política; se o acordo for chancelado sem alterações, espera‑se uma reação continuada das frentes agrícolas. Em ambos os cenários, a tectônica de poder entre produtores, instituições e blocos externos continuará a evoluir — e os próximos dias serão determinantes.






















