Por Marco Severini — No palco histórico do World Economic Forum, onde a edição 2026 foi inaugurada sob o lema “Espírito do diálogo”, irrompeu um vento de rupturas. O protagonismo do dia coube a Trump, cuja retórica e prática de unilateralismo brutal forçaram relatores e chefes de Estado a recorrerem a uma expressão emblemática: a lei da selva.
Foi Borge Brende, presidente do World Economic Forum, o primeiro a alertar que é preciso evitar que “a selva volte a crescer”, num diagnóstico direto sobre o retrocesso da cooperação internacional. A metáfora, já forte por si só, encontrou confirmação imediata nas palavras do vice-premier chinês He Lifeng, responsável pelos dossiês econômicos de Pequim: a globalização é irreversível e o mundo “não pode recair na lei da selva, onde os fortes predam os fracos”.
O contraste entre o palco multilateral — concebido como um templo do diálogo entre Estados e mercados — e o ímpeto unilateral do magnata norte-americano gerou uma reação em cadeia. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, já em posição de campanha para 2028, apropriou‑se da expressão ao criticar o enfraquecimento das regras internacionais. E o presidente francês, Emmanuel Macron, não poupou ironia ao descrever o evento de amanhã como uma espécie de “one man show” que promete monopolizar a atenção antes mesmo de começar.
No meio dessa disputa de discursos, um tema manteve-se inalterado no topo da agenda dos líderes ocidentais: a situação na Groenlândia. A ilha voltou a funcionar como cartografia simbólica e estratégica — um ponto de pressão onde se medem interesses, alianças e o redesenho de fronteiras invisíveis entre potências. A menção reiterada à Groenlândia revela bem a natureza híbrida dos riscos contemporâneos, que misturam geopolítica, recursos e projeção de poder.
Como analista que privilegia a visão em tabuleiro, percebo o episódio de Davos como um movimento decisivo: não se trata apenas de retórica incendiária, mas de uma tentativa de reconfiguração da ordem. O unilateralismo de Trump funciona como uma torre lançada contra as diagonais sutis do sistema multilateral; a réplica vem em forma de alerta institucional e de alianças tácitas que procuram reforçar os alicerces frágeis da diplomacia coletiva.
Há ainda uma lição prática: a arquitetura das normas internacionais é vulnerável quando as grandes potências optam por jogar fora o manual. Nesse sentido, as declarações de He Lifeng e de atores europeus indicam um esforço consciente de conter a erosão normativa, preservando espaços de cooperação que, mesmo frágeis, impedem o retorno pleno à lei da selva.
Em última análise, Davos 2026 mostra um tabuleiro em movimento — peças sendo reposicionadas, alianças testadas, e políticas públicas e econômicas reavaliadas. O que está em jogo não é apenas a retórica de um dia, mas a tectônica de poder que definirá a governança global nos próximos anos. Observar as jogadas com a calma de um jogador experiente é condição essencial para antecipar cenários e preservar a estabilidade internacional.






















