Franz Di Cioccio não busca explicações para ainda querer subir ao palco; a pergunta é como alguém consegue ficar longe dele. Líder e rosto percussivo da PFM — a Premiata Forneria Marconi —, ele celebra 80 anos em 21 de janeiro com a serenidade de quem sabe que a música é um espelho do tempo e um roteiro que se reescreve a cada apresentação. “Não tenho nenhuma intenção de parar”, afirma. “Sempre quero tocar; a relação com o público fica dentro de você, e a música te envolve. Temos as orelhas feitas para ouvir música.”
A narrativa de vida de Franz Di Cioccio tem ecos familiares: filho de um grande oboísta, herdou o gosto pelas sonoridades desde pequeno. “Eu mastiguei o oboé do meu pai quando criança; todas as manhãs ele dizia ‘vamos ver onde você estragou’. Tentei aprender, mas me fazia aparecer cortes nos lábios e eu não podia beijar as meninas. Quando comecei na bateria, entendi que aquilo seria minha vida.”
O nome, por si só, já parece roteiro: seu pai batizou-o de Franz em homenagem aos grandes compositores europeus — Liszt, Schubert e Lehár — convencido de que o terceiro filho seria músico. Era o pós-guerra e nomes alemães estavam mal vistos; o padre protestou, houve até uma corrida pela rua, mas o registro ficou em Franz (Renzo passou a ser o segundo nome). Essa cena, quase cinematográfica, revela a tensão entre tradição, identidade e desejo artístico que atravessou a geração dele.
Desde 1970, Franz é pilar da PFM. Hoje, a banda está em turnê com o show “Doppia Traccia”, dividido entre canções de Fabrizio De André e faixas clássicas da própria Premiata Forneria Marconi. “O mais bonito é que nunca fazemos duas noites iguais; é como recomeçar sempre. O público percebe e cada show vira uma magia”, conta, como quem descreve uma cena que muda com a luz e o público — a semiótica do vivo.
Ao longo da carreira, as colaborações e memórias se acumulam: Lucio Battisti e Fabrizio De André são nomes que ainda ressoam perto de sua afetividade artística. Entre os músicos internacionais, Franz guarda carinho por Emerson, Lake & Palmer, Steve Hackett e Ian Anderson (com quem mantém amizade; foram assistir juntos ao Jethro Tull e passaram quase uma hora no camarim). Lembra também de Santana, não só como grande artista, mas como pessoa generosa: numa ocasião cedeu parte de seu show quando o público exigiu os italianos; em outra, emprestou a guitarra de Carlos a Mussida quando instrumentos da PFM foram roubados.
Entre episódios que soam como pequenas lendas do rock, permanece uma declaração que resume a influência cultural da banda: Phil Collins chegou a dizer que, sem a PFM, os Genesis talvez não tivessem virado o que vieram a ser. Naquele momento histórico, o prog já respirava com força na Itália, enquanto na Inglaterra ainda se consolidava — como se o país tivesse oferecido um terreno fértil para uma linguagem musical que falava ao espírito da época.
Fora dos palcos, Franz Di Cioccio vive cercado por uma pequena corte animal: são seis cães e sete gatos, companhia que traduz o afeto cotidiano de quem carrega histórias de turnês em partituras e memórias. Mesmo assim, a urgência artística segue intacta; para ele, a profissão é uma continuidade: a cada concerto, há um reframe da realidade, e o público é cúmplice dessa transformação.
Como analista do zeitgeist musical, a trajetória de Franz é mais do que um percurso biográfico: é a história de um país que, entre reconstruções e rupturas, encontrou no prog um espelho para sua identidade cultural. Subir ao palco, para ele, não é apenas tocar — é reencenar a memória coletiva e reconectar plateias a um roteiro que permanece em aberto.
O baterista celebra os 80 com a aura de quem sabe que, no cinema da vida, algumas cenas precisam ser revisitadas: nem por nostalgia, mas para lembrar que a música tem o poder de reescrever o presente. E enquanto houver plateia, ele seguirá ali, classificando o tempo em compassos e silêncios, convincente como sempre.
















