Emmanuel Macron enviou uma mensagem direta a Donald Trump propondo um encontro em Paris na tarde de quinta-feira, após o Fórum Econômico Mundial em Davos. Os recados, cuja divulgação coube ao próprio ex-presidente norte-americano através do seu canal Truth Social, lançam nova luz sobre uma tática de diplomacia pessoal que cruza charme e pressão estratégica.
No material publicado por Trump aparecem capturas da comunicação do chefe do Estado francês. Nelas, Macron escreve, em tom conciliador e propositivo: “Amigo meu, estamos totalmente alinhados sobre a Síria. Podemos fazer grandes coisas sobre o Irã. Não entendo o que você está fazendo sobre a Groenlândia”. Prossegue sugerindo dois passos concretos: a convocação de uma reunião do G7 em Paris, com a possibilidade de incluir, à margem, representantes ucranianos, dinamarqueses, sírios e russos; e um jantar entre os dois líderes na quinta-feira antes do regresso de Trump aos Estados Unidos.
Importa sublinhar que, nas imagens tornadas públicas por Truth Social, não consta qualquer resposta de Trump aos termos propostos por Macron. A Casa Branca, por seu turno, não forneceu comentários oficiais sobre a publicação das mensagens privadas.
O episódio ocorre em contexto de elevada tensão comercial. Em um discurso posterior a jornalistas em Miami, Trump chegou a considerar medidas tarifárias como instrumento de coerção: afirmou que, caso perceba hostilidade, aplicaria uma sobretaxa de até 200% sobre vinhos e champagne franceses — declaração que visa, nas palavras do próprio, forçar uma mudança de posição. Em outras ocasiões, o ex-presidente já se valeu da ameaça de tarifas na casa dos 25% como alavanca negociadora, comportamento que traduz uma política externa moldada por lógica de barganha e poder econômico.
Do ponto de vista estratégico, o gesto de Macron é ambivalente: ao mesmo tempo em que se aproxima do outro jogador central do tabuleiro transatlântico, tenta redesenhar canais de diálogo sobre dossiers sensíveis como Síria e Irã. A resposta tardia — ou a ausência pública de resposta — de Trump, e a escolha de publicar os recados, transformam um ato diplomático privado em jogada pública, com efeitos sobre a percepção global e sobre os mercados.
Enquanto isso, as ameaças tarifárias delineiam um mapa de pressões que jogam com os alicerces frágeis da cooperação comercial. A oferta de Macron de reunir atores divergentes ao redor do G7 sinaliza uma tentativa de arquitetura multilateral para evitar que disputas bilaterais escorreguem para rupturas mais amplas. Já a tática de exposição pública de Trump — um movimento típico de um jogador que prefere condicionar a arena privada pela opinião pública — revela a tectônica de poder que hoje atravessa as relações internacionais.
Como analista, vejo esse episódio como mais uma partida em que peças tradicionais — diplomacia presidencial, fóruns multilaterais e instrumentos econômicos — são movimentadas com fins mixtos: cooperação seletiva combinada a coerção. Resta saber se o jantar proposto em Paris será apenas um lance simbólico ou o início de uma sequência que reequilibre, ainda que temporariamente, as linhas de influência entre Europa e Estados Unidos.
Marco Severini — Espresso Italia. Observador de estratégia internacional e das dinâmicas de poder que configuram o novo mapa geopolítico.






















