Por Marco Severini — Em novo capítulo da tectônica de poder venezuelana, Hugo Armando Carvajal Barrios, conhecido como “El Pollo Carvajal”, confirmou que será o principal acusador no processo de Nova York que envolve vínculos entre o Estado venezuelano e o crime organizado.
O ex‑alto oficial afirma dispor de provas documentais e testemunhais sobre o envolvimento direto de setores do governo liderado por Nicolás Maduro em operações de narcotráfico, em níveis de corrupção institucionalizados no Executivo e no Parlamento, e em práticas que configuram violações de direitos humanos dentro e fora da Venezuela. Em linguagem de cartografia estratégica, Carvajal promete desenhar os contornos de uma máquina criminal que, segundo ele, extrapolou as fronteiras nacionais.
Entre as acusações que pretende detalhar em juízo está o papel do grupo conhecido como El Tren de Aragua. Originário do controle carcerário de Tocorón, no Estado de Aragua, o coletivo teria evoluído de facção prisional para uma organização transnacional que atua desde a gestão de fluxos migratórios e extorsão até o tráfico internacional de drogas. Para Carvajal, o grupo foi instrumentalizado pelo regime não apenas para controlar espaços internos, mas como uma peça numa estratégia mais ampla, capaz de semear instabilidade — inclusive em solo norte‑americano.
O relato público do general busca demonstrar que a expansão do modelo do grupo seguiu uma lógica de “franchising” criminal, por meio de alianças locais que reduziram custos operacionais e ampliaram o alcance geográfico, da América do Sul até a fronteira com os Estados Unidos. Trata‑se, nas palavras do próprio ex‑oficial, de um motor de ação que combinou violência sistemática com organização logística.
Historicamente, Carvajal foi figura central do circuito chavista: homem de confiança de Hugo Chávez e um aliado próximo que manteve influência até 2021. A trajetória posterior transforma‑o numa peça ambígua do tabuleiro: alvo de tentativas de prisão em jurisdições como Holanda e Aruba, procurado na Colômbia por acusações de tortura e homicídio de dois agentes locais, detido na Espanha em setembro de 2019 e, finalmente, extraditado para os Estados Unidos em 2023.
Durante o período de isolamento e viagens forçadas, o general, hoje com 65 anos, chegou a apoiar o autoproclamado presidente interino Juan Guaidó na crise de 2019, expressando críticas contundentes à “governança” de Nicolás Maduro. A mudança de posição e a disposição para testemunhar em Nova York representam um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico que circunda Caracas.
Do ponto de vista estratégico, a possibilidade de um alto ex‑oficial estreitar o nexo entre instituições do Estado venezuelano e redes criminosas abre um novo capítulo nas relações internacionais da região. Não se trata apenas de provas em um tribunal: é a tentativa de reconstruir, peça por peça, os alicerces frágeis da diplomacia venezuelana e de mapear um redesenho de fronteiras invisíveis — redes que atravessam Estados, instituições e mercados ilícitos.
O processo em Nova York, portanto, não é um evento isolado, mas um reflexo das linhas de tensão que percorrem a América Latina. O testemunho de Hugo Armando Carvajal Barrios pode alterar equilíbrios, provocar redefinições de alianças e trazer à luz documentos e nomes que permaneciam na sombra. Como em uma partida de xadrez bem pensada, cada declaração e cada prova são movimentos que buscam criar jaque‑mate político e jurídico.
Enquanto o sistema judiciário americano se prepara para ouvir o que o ex‑general declarou estar disposto a narrar, a comunidade internacional observa o desdobrar de um caso cujo impacto pode reverberar muito além de um tribunal: sobre a governabilidade interna venezuelana, sobre rotas do crime transnacional e sobre o equilíbrio das relações hemisféricas.






















