Por Aurora Bellini — A Treccani publicou o Livro do Ano 2025 e, nele, uma seção dedicada a As palavras do ano que registra os neologismos que melhor desenham os contornos do nosso tempo. Essas novas entradas no léxico emergem entre política, tecnologia, economia e crônica social, iluminando tendências e tensões que moldaram o ano. Como curadora de linguagem e sensibilidade social para a Espresso Italia, vejo nessas palavras uma paisagem viva: sinais de mudança que nos convidam a cultivar entendimento e agir com responsabilidade.
Entre os neologismos reunidos pela Treccani e comentados aqui para nossa comunidade, destacam-se termos que se tornaram porta-vozes de debates públicos e privados. Alguns exemplos — apresentados com a concisão necessária para que o significado acenda como um foco — são:
- tornanza: a ação ou o fato de retornar ao lugar de origem; uma palavra que sugere retorno físico e simbólico, como um ciclo que se fecha e reabre.
- droga degli zombie: expressão jornalística usada para referir-se ao fentanil quando vendido e consumido ilegalmente, com efeitos devastadores.
- affidopoli: termo para supostos escândalos relacionados a procedimentos de adjudicação direta de contratos; uma palavra que denuncia fragilidades institucionais.
- allucinazione dell’intelligenza artificiale: a informação errada gerada por um sistema de inteligência artificial — um lembrete de que a luz da tecnologia às vezes projeta sombras.
- keybox: cassetta de segurança portátil com combinação, usada para guardar chaves; um detalhe cotidiano que ganhou nome próprio.
- pro-Pal: quem apoia politicamente a causa do povo palestino; termo ligado a debates internacionais e identidades políticas.
- la qualunque: expressão para algo “qualquer coisa” dito fora de contexto, em honra ao personagem Cetto La Qualunque, criado por Antonio Albanese; um empréstimo cultural que entrou no uso comum.
- occhi spaccanti: expressão visual que descreve olhos que impressionam ou intimidam; imagem que atravessa linguagem e sensações.
- ingiocabile: homenagem ao atleta Jannik Sinner, termo que descreve desempenho extraordinário no esporte — uma palavra que celebra excelência.
Outros termos que aparecem no levantamento refletem contextos nacionais e transnacionais: Brandmauer (isolamento político de forças extremistas na Alemanha), sumud (resiliência e resistência cultural palestina), maranza (jovem de grupo de rua com comportamento barulhento e agressivo) e rifugio climatico (lugares equipados para abrigar pessoas de temperaturas extremas).
No campo da tecnologia, as palavras destacam desafios éticos e sociais: nudificazione (criação ilegal de falsos nus), broligarchia (a elite de empresários tecnológicos que influencia políticas) e metatelefono (objeto semelhante a um celular, porém falso). Na economia, emergem termos como bullismo economico (práticas de pressão para impor condições desfavoráveis), controdazio (dazio de retaliação) e cryptogate (escândalo envolvendo emissão de criptomoedas).
Há também neologismos que se instalam com leveza e ironia no uso cotidiano, como kiss cam (a câmera que flagra beijos nas arquibancadas) e romantasy (gênero narrativo que entrelaça romance apaixonado e elementos fantásticos). A pluralidade dessas palavras revela que a língua é um jardim vivo: semeia inovação, recolhe sentido e reinventa caminhos de comunicação.
Registrar essas entradas no dicionário é mais do que arquivar vocábulos: é iluminar as transformações sociais. A Treccani, ao compilar o Livro do Ano 2025, ofereceu um espelho onde reconhecemos medos, urgências e também a capacidade humana de nomear o mundo. Na Espresso Italia, celebramos essas luzes linguísticas como pontes — convites para compreender melhor, debater com rigor e cultivar respostas que honrem a dignidade coletiva.
Que essas palavras sirvam de faróis: nos ajudem a identificar pontos de atenção e a traçar um horizonte límpido onde informação, ética e ação caminhem juntas.



















