Por Aurora Bellini — Em um dia que para muitos simboliza festa e afeto, a cena em frente ao centro Pane Quotidiano em Milão revelou uma realidade distinta: uma fila ordenada de cerca de 350 metros e pelo menos quatrocentas pessoas esperando por duas horas ou mais para receber uma sacolinha de alimentos e, para as crianças, um brinquedo que, em muitos casos, foi o único presente do dia.
“Todos os anos no Natal vemos um aumento do fluxo, mas este ano o número de pessoas é definitivamente maior do que o habitual”, conta Claudio, coordenador dos 30 voluntários que atuaram na sede de viale Toscana. Só entre essa unidade e a de viale Monza, segundo a organização, as passagens superaram a marca de 5.000 no dia.
A imagem da longa fila — serpenteando além do cruzamento com via Castelbarco — é um termômetro discreto, porém eloquente, de uma Milão que contrasta com a narrativa internacional da cidade-ícone da moda e do luxo. “Todo mundo imagina uma cidade repleta de bem-estar, mas a realidade de Milão também é esta”, diz Michele, um dos voluntários, enquanto distribui doces às crianças. “Aqui reencontrei ex-colegas, conhecidos. Viver aqui virou impossível para o cidadão comum. Na fila há estrangeiros, mas também muitos italianos e pensionistas.”
Luigi Rossi, presidente do Pane Quotidiano, observa que Milão é, ao mesmo tempo, uma capital europeia e “a cidade onde o poder de compra caiu mais do que em outros lugares”. A constatação é dura: convivem bairros de brilho e bolsões de privação, sem uma zona intermediária visível. “Aos políticos eu digo: venham aqui, vejam a fila com os próprios olhos. Aqui o Estado não está presente”, desabafa Domenico, que ajudava a orientar os que chegavam.
Enquanto caixas, sacos e pequenos presentes eram entregues, permanecia visível na entrada do centro o lema da associação: “Irmã, irmão, ninguém aqui perguntará quem você é, por que precisa nem quais são as suas opiniões”. A frase, impressa em letras firmes, traduz o princípio laico e solidário que guia a ação: acolher sem julgamentos.
Há, nas horas de espera e nas mãos que oferecem ajuda, um gesto simples que ilumina caminhos: voluntários que semeiam dignidade e comunião social quando as políticas públicas falham em alcançar. Mesmo assim, a cena da fila natalina insiste em lembrar que a solidariedade, por mais generosa, não substitui políticas robustas de combate à pobreza.
Relatos entrelaçados às imagens do dia apontam para desafios estruturais: queda do poder aquisitivo, custos habitacionais elevados e uma rede de proteção social que parece insuficiente frente ao aumento da necessidade. Ao lado da entrega de alimentos e brinquedos, há o apelo implícito por respostas públicas e duradouras.
O trabalho do Pane Quotidiano é, para muitos, um farol prático num horizonte ainda por clarear — uma luz que revela novas rotas possíveis, mas que também convoca responsabilidades coletivas para que, no futuro, filas como essa sejam atenuadas por políticas que promovam inclusão e bem-estar para todos.






















