Por Marco Severini — A Bolsa de Milão abriu a sessão em queda e acelerou para um recuo de 1,50%, em sintonia com os principais mercados acionários europeus. Ontem já havia havido um declínio de 1,32%, reação direta ao anúncio de medidas tarifárias direcionadas a oito países europeus que enviaram contingentes militares à Groenlândia — um movimento que redesenha, de forma sutil, zonas de influência e alicerces da diplomacia comercial.
Os investidores, que procuram sinais de descompressão nas relações transatlânticas, parecem não ter encontrado hoje motivos de alívio. A deterioração dos índices intensificou-se após as declarações de Manfred Weber, presidente do PPE, sobre a possibilidade de suspensão do acordo comercial entre Estados Unidos e União Europeia. Na articulação complexa entre política e economia — um verdadeiro tabuleiro de xadrez geoeconômico —, cada declaração é um lance que pode forçar respostas assimétricas.
Adicionalmente, a ameaça do presidente Trump de impor tarifas de até 200% sobre vinhos e champanhes franceses penalizou imediatamente os papéis do setor de luxo, sobretudo aqueles integrados em grupos com atuação vitivinícola. Entre os destaques negativos figuram LVMH (-2,51%), Kering (-3,32%) e Rémy Cointreau (-2,98%). Essa reprecificação evidencia a vulnerabilidade dos ativos premium a choques políticos, um lembrete de que prestígio e proteção tarifária são frágeis quando postas à prova.
Em Piazza Affari, a queda foi quase generalizada por setores: Defesa e Bancos figuraram entre os mais afetados. As maiores perdas individuais foram registradas por Fincantieri (-3,36%), Unipol (-2,98%) e Banco BPM (-2,79%). Em contrapartida, Amplifon apresentou desempenho positivo, subindo +2,62%, uma exceção notável num pregão predominantemente vendedor.
No mercado de commodities, o metal precioso seguiu em alta: o ouro renovou máximas históricas, ultrapassando os 4.720 dólares por onça, com valorização diária de +1% e um ganho acumulado de +74,8% no último ano — um reflexo clássico da busca por porto seguro em períodos de incerteza sistêmica.
Quanto aos mercados asiáticos, houve leve queda nas bolsas chinesas durante a madrugada, enquanto Tóquio registrou um tombo mais pronunciado (-1,03%). A convocação de eleições antecipadas no Japão elevou os rendimentos dos títulos públicos aos níveis mais altos desde 1999, sinalizando ajuste nas expectativas de política monetária e impacto direto sobre ativos locais.
Os futuros indicam que Wall Street deve abrir em queda, com projeções de cerca de -1,50% para os índices principais e um ajuste ainda mais expressivo para o S&P 500 e Nasdaq, na ordem de -1,90% segundo contratos futuros. Em síntese, estamos diante de um movimento coordenado de aversão ao risco, onde a tectônica de poder entre Washington e Bruxelas configura o ambiente de mercado. No tabuleiro internacional, o próximo lance poderá ser decisivo para a estabilidade dos fluxos comerciais e para a recuperação dos índices.






















