Por Alessandro Vittorio Romano — Trazer a glicemia de volta a níveis estáveis é como devolver ritmo ao tempo interno do corpo: uma pequena colheita de hábitos que rende proteção ao coração. Uma nova análise internacional publicada em The Lancet, coordenada por pesquisadores do University Hospital de Tubinga, Helmholtz Munich e do Deutsches Zentrum für Diabetesforschung, revela que a normalização da glicemia na fase de prediabetes reduz em cerca de 50% o risco de infarto, scompenso cardiaco (insuficiência cardíaca) e morte cardiovascular prematura.
Os autores combinaram e reanalisaram dados de dois dos maiores programas de prevenção do diabetes no mundo, realizados nos Estados Unidos e na China, envolvendo mais de 2.400 pessoas com prediabetes. O acompanhamento estendeu-se por até 20 anos no estudo americano e 30 anos no chinês, oferecendo uma visão longitudinal rara — como o traçado das raízes que conta a história de uma árvore ao longo de décadas.
A análise destaca que o benefício cardiovascular não se explica apenas pelas mudanças de estilo de vida em si, mas pelo alcance e manutenção da remissão do prediabetes, definida como a normalização estável da glicemia. Participantes que conseguiram manter níveis de glicose no intervalo normal mostraram risco significativamente menor de morte cardiovascular e de internação por scompenso cardiaco em comparação com aqueles que permaneceram em condição de hiperglicemia, mesmo quando a perda de peso era semelhante entre os grupos.
Um achado prático importante emergiu da pesquisa: existe um valor limiar simples e aplicável na prática clínica. Uma glicemia de jejum igual ou inferior a 97 mg/dL associou-se a um risco cardiovascular persistentemente mais baixo, independentemente da idade, do peso ou da origem étnica dos participantes. Esse número torna-se um farol clínico, fácil de medir e de comunicar, especialmente útil em sistemas de saúde onde a prevenção ainda caminha a passos lentos.
Segundo os pesquisadores, esses resultados preenchem uma lacuna histórica: até aqui, intervenções no estilo de vida no prediabetes não haviam demonstrado de forma clara uma redução a longo prazo nos eventos cardiovasculares maiores. A nova evidência sugere que a remissão do prediabetes deve ser encarada como um objetivo clínico mensurável e relevante também para a proteção do coração.
Como diretor da Clínica de Diabetologia do University Hospital de Tubinga, Andreas Birkenfeld resume com clareza: a remissão não apenas atrasa ou previne o diabetes tipo 2, mas protege contra doenças cardiovasculares graves ao longo do tempo. Em termos de saúde pública, essa conclusão tem impacto direto — especialmente em países onde a adoção de medidas preventivas baseadas em evidência ainda é insuficiente. Em lugares como a Alemanha, por exemplo, a mortalidade cardiovascular permanece elevada em comparação com outros países europeus, parcialmente pela demora na implementação de estratégias preventivas.
Para quem vive a Itália como experiência sensível do dia a dia, a mensagem é prática e esperançosa: cultivar pequenos gestos — alimentação mais saudável, movimento diário, sono restaurador — pode ser a agricultura cotidiana que conduz à remissão do prediabetes e, assim, à proteção duradoura do coração. Ancorar a remissão como objetivo nas diretrizes clínicas poderia fortalecer de forma substancial a prevenção tanto do diabetes quanto das doenças cardiovasculares.






















