Por Riccardo Neri — Um amplo estudo da Universidade de Zurique, publicado no Journal of Personality and Social Psychology, mapeou por mais de uma década a vida sentimental de aproximadamente 17 mil jovens entre o Reino Unido e a Alemanha. A pesquisa acompanhou pessoas dos 16 aos 29 anos para identificar quais variáveis tornam mais difícil o início da primeira relação séria.
Os resultados são contraintuitivos em um primeiro olhar: um maior nível de instrução surge como um dos principais pontos de fricção. Indivíduos com formação superior — aqueles que frequentaram a universidade — tendem a permanecer solteiros por períodos mais longos. Entre os homens, essa tendência se mostra ainda mais pronunciada, enquanto viver prolongadamente com os pais — a condição socialmente apelidada de “bamboccioni” — ou em isolamento residencial também reduz as probabilidades de constituir par.
O estudo revela, igualmente, uma dinâmica psico-sociológica: a baixa satisfação com a vida e o sentimento de solidão agem como forças retroalimentadoras. Em outras palavras, quem está infeliz torna-se menos propenso a buscar ou aceitar oportunidades de conexão, dificultando a formação de vínculos justamente quando o desejo por estabilidade aumenta.
Como explica o coautor Michael Kramer, durante a adolescência o bem-estar de quem é solteiro e de quem está em relação é similar. No entanto, rumo ao final dos 20 anos as trajetórias se separam. “Os jovens adultos que permanecem solteiros por longos períodos experimentam queda na satisfação e aumento do sentimento de solidão”, afirma Kramer. Esses sinais tendem a intensificar-se por volta dos 30 anos, quando podem aparecer também sintomas depressivos.
Há, porém, um elemento positivo identificado pela pesquisa: o início da primeira relação costuma provocar uma melhora imediata e significativa no bem-estar psicofísico. A dificuldade reside no fato de que a solidão prolongada pode tornar-se autoalimentante — um circuito que exige intervenção consciente para ser interrompido.
Do ponto de vista de infraestrutura social e emocional, este estudo funciona como um diagnóstico do “sistema nervoso” das transições de vida: variáveis sociodemográficas e psicológicas operam como camadas de protocolo que regulam o fluxo de conexões pessoais. A conclusão de Kramer é clara: permanecer solteiro por longo tempo na primeira idade adulta carrega riscos moderados para o bem-estar emocional, e não se trata apenas de sorte ou acaso.
Para profissionais de políticas públicas, urbanistas e gestores de serviços sociais, a implicação é prática e direta: intervenções que reduzam o isolamento residencial, apoiem a integração social de jovens universitários e ofertem recursos de saúde mental podem alterar a topologia relacional da população jovem. Em termos de alicerces digitais e comunitários, trata-se de desenhar camadas de apoio que facilitem encontros não por acaso, mas por desenho social.
Palavras-chave: solteiros, formação superior, bamboccioni, solidão, bem-estar.






















