Por Chiara Lombardi — Em Palazzo Zabarella, até 25 de janeiro, a coleção que Roger Dutilleul começou a reunir transforma-se num pequeno fenômeno de cena: 65 obras reunidas a partir do LaM – Lille Métropole Musée d’art moderne, d’art contemporain et d’art brut – que chegam a Pádua como se fosse um roteiro íntimo da modernidade. A mostra Modigliani, Picasso e as vozes da modernidade, curada por Jeanne‑Bathilde Lacour, convida o público a escutar, mais do que a apenas olhar, o eco cultural de um século de revoluções estéticas.
O fio condutor é, em si, uma descoberta. Não há sistema teórico a conduzir a seleção; há escuta. Roger Dutilleul começou a colecionar ainda jovem, aos trinta anos, e se tornou um mecenas atípico: comprava por intuição, apoiava talentos marginalizados e acompanhava artistas que o mercado e a crítica ainda não haviam reconhecido. Quando pendurou em seu salão da Rue de Monceau as telas de Picasso e Modigliani lado a lado, criou um espelho do nosso tempo — um cenário onde o cotidiano se refrata e ganha outras cores.
Depois da morte de Dutilleul, o sobrinho Jean Masurel e sua esposa deram continuidade ao gesto. Alinhando-se ao gosto do tio, integraram a coleção com obras de Fernand Léger, Georges Braque, Paul Klee e uma diversidade que vai do cubismo ao Art Brut, sem esquecer a figura de artistas autodidatas. Em 1983, a doação ao município de Lille deu origem ao Musée d’art moderne de Villeneuve d’Ascq, e dali parte este diálogo que agora reencontra a cidade italiana.
Ver estas obras juntas é como assistir a uma montagem cinematográfica em que cortes rápidos entre cenas revelam uma narrativa oculta: o cubismo explode o rosto do mundo e recria o tempo; o retrato de Picasso assume a palidez das ruínas, remanescente de um século em conflito; a figura tubular de Léger transpõe a máquina para o afeto, sugerindo um amor de aço. A exposição, portanto, não é apenas uma sequência de nomes célebres, mas um reframe da história cultural — uma montagem em que cada quadro funciona como plano-sequência do nosso imaginário coletivo.
O mérito que salta aos olhos é a ausência de dogma curatoral. A disposição das peças permite que quem entra no Palazzo Zabarella se mova com a mesma liberdade de Dutilleul: sem preconceitos, atento às vibrações que uma obra provoca. Assim, a modernidade exposta é coral: há vozes cubistas, surrealistas, abstratas, naïf e brutas; e a soma dessas vozes compõe o panorama da ruptura com a tradição acadêmica e a invenção de novas gramáticas visuais.
Como analista cultural, proponho olhar para a coleção como um roteiro oculto da sociedade europeia do século XX. O colecionador não é apenas um acumulador de imagens, mas alguém que, com o seu olhar, acerta o foco do espelho histórico. Ao favorecer artistas que tinham pouco espaço no circuito oficial, Dutilleul e depois Masurel amplificaram sonoridades que, hoje, aparecem como sinais precursores de mudanças maiores: a urbanização acelerada, a industrialização afetiva, as novas formas de subjetividade.
A exposição em Pádua, por fim, funciona como um convite: não para venerar nomes, mas para escutar. Escutar o que cada pincelada sussurra sobre a fragilidade e a força da modernidade. É uma mostra para ser atravessada com curiosidade sofisticada — a mesma sensibilidade que fez de Dutilleul um intérprete precoce dos sinais do seu tempo.
Palazzo Zabarella, Padova — até 25 de janeiro. Curadoria: Jeanne‑Bathilde Lacour. Procedência: LaM – Lille Métropole Musée d’art moderne, d’art contemporain et d’art brut. Obras: 65 peças de 30 artistas da coleção Dutilleul–Masurel.
















