Por Marco Severini — Em um gesto de autoridade direta e calculada, Kim Jong‑un demitiu publicamente o vice‑premier e ex‑ministro da Indústria Mecânica, Yang Sung‑ho, durante a cerimônia de inauguração da primeira fase do complexo de máquinas de Ryongsong, em Hamhung, na costa leste da Coreia do Norte. A decisão, anunciada no discurso oficial de 19 de janeiro, foi justificada pelo líder como uma resposta à “irresponsabilidade” e às “perdas económicas” vinculadas à execução deficiente do projecto.
O episódio, filmado e amplamente divulgado pela agência estatal KCNA, segue um roteiro habitual do regime: utilização de uma vitrine pública — neste caso a inauguração do complexo — como palco para um movimento disciplinar que transmite uma mensagem clara aos quadros do Partido dos Trabalhadores. Segundo relatos oficiais, a fiscalização do empreendimento revelou cerca de sessenta problemas técnicos e de gestão, levando o Partido a enviar uma equipa de peritos para uma revisão abrangente. Kim afirmou que as dificuldades acarretaram confusão desnecessária e que Yang teria até praticado atos e pronunciamentos considerados depreciativos ao Partido, qualificando‑o como “não apto” para o cargo.
O Ryongsong Machine Complex, situado na província de Hamgyong do Sul, é um pólo industrial estratégico na oferta de máquinas e equipamentos para a extração e manutenção de outras unidades fabris do país. O projecto havia sido decidido como prioridade após o VIII Congresso do Partido, como parte de uma agenda mais ampla de modernização da indústria mecânica nacional. A demissão pública revela, portanto, não apenas um ajuste de pessoal, mas um reposicionamento político: Kim reforça a disciplina e o controlo sobre os executores das políticas económicas enquanto se aproxima o IX Congresso, encontro que definirá metas e linhas de poder para os próximos anos.
Do ponto de vista da geopolítica interna, o movimento combina autoridade simbólica e sinal prático. Em termos de tabuleiro, trata‑se de um lance destinado a reafirmar o monopólio do centro sobre os fluxos decisórios e a evitar que eventuais fracassos técnicos se convertam em fissuras na coesão do aparelho partidário. A menção a cerca de sessenta deficiências técnicas indica falhas na implementação e na supervisão — vulnerabilidades que, num sistema onde a engenharia da reputação é tão crucial quanto a engenharia industrial, exigem correções rápidas e exemplares.
Além do caráter punitivo, Kim anunciou metas para a próxima fase de modernização do complexo e atribuiu tarefas detalhadas para revitalizar a indústria mecânica. Observadores internacionais interpretam a medida como uma tentativa de acelerar resultados concretos antes do Congresso, e ao mesmo tempo de impor um efeito pedagógico sobre os gestores económicos: a disciplina interna se impõe como alicerce frágil, porém necessário, para a estabilidade do plano estatal.
Em síntese, a demissão pública de Yang Sung‑ho funciona como um duplo movimento — correção técnica do projecto Ryongsong e demonstração de poder no momento em que o regime reposiciona suas prioridades. No mapa da Tectônica de poder norte‑coreana, é um redesenho sutil, mas decisivo, de fronteiras invisíveis entre responsabilidade técnica e disciplina política.






















