Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura a cartografia do drama humano com a estética do cinema, Shirin Neshat assina sua primeira direção operística na Itália trazendo Orfeo e Euridice para o palco do Regio de Parma no dia 23 de janeiro. Depois da experiência com Aida em Salzburgo (2017), a artista visual iraniana reconstrói o mito de Gluck como um espelho do presente: seres de carne e osso, marcados por perdas, culpas e fragilidades.
No centro da encenação está a figura de Euridice, tratada por Neshat não apenas como objeto do desejo do herói, mas como sujeito com vida interior complexa. A diretora desloca o foco do espetáculo para a psique dela: a morte de Euridice é lida não como um acidente externo, mas como um colapso nervoso progressivo. Segundo Neshat, essa destruição íntima nasce de um luto primordial — a perda de um filho — que vai corroendo a confiança e a vontade de continuar.
“Há uma leitura psicológica: a morte de Euridice não é um gesto impulsivo, mas o resultado de um processo. Não é tanto o desejo de morrer, mas a incapacidade de continuar a viver”, explica a artista. Esse reframe transforma os Infernos em uma cena de responsabilidade: Orfeo é obrigado a encarar sua culpa, e o retorno não repara a relação, revela sua insustentabilidade.
Esteticamente, a produção dialoga com o cinema noir — preto e branco, fotografias e projeções compõem uma sensação cinematográfica que sublinha o olhar de Neshat sobre a intimidade dilacerada. A encenação privilegia a imagem e a suspensão, propondo o teatro lírico como um dispositivo semiótico onde o mito devolve verdades do presente.
Musicalmente, a ópera conta com a direção de Fabio Biondi e as vozes de Carlo Vistoli e Francesca Pia Vitale, que atravessam a partitura de Gluck com a tessitura dramática proposta pela encenação. O encontro entre a partitura clássica e a sensibilidade visual contemporânea cria um reframe poderoso: o mito permanece, mas é resignificado pelo tempo.
O caráter político da artista não é dissociável de sua leitura. Neshat, que deixou o Irã em 1979 rumo a Nova York, observa o país que arde nas recentes manifestações: “A protesto cresce, a gente não tem mais comida na mesa; me preocupa o futuro e qual será a alternativa”, ela diz, atenta ao papel ativo das mulheres nas ruas iranianas. Essa consciência atravessa sua prática artística: a cena operística torna-se um eco cultural das revoltas e das ausências que marcam a contemporaneidade.
O Orfeo de Neshat não é uma reconstrução mitológica reverente, mas uma desmontagem humanizadora — uma tentativa de ouvir o que Euridice, tantas vezes silenciada, carrega em seu canto. Quando a personagem canta a frase dolorosa que atravessa a partitura — “No, più cara è a me la morte, che di vivere con te” —, a cena se abre para a dimensão da resignação e do luto prolongado.
Esta estreia italiana tem a ambição de ser mais do que um espetáculo: é um interrogatório estético sobre como contamos nossas histórias de perda e responsabilidade. Em tempos em que o palco e a praça se respondem, a direção de Shirin Neshat transforma o velho mito em um roteiro oculto do nosso tempo, convidando a plateia a ver no espelho da ópera a fratura do presente e as possíveis formas de reparação.
Produção: Teatro Regio di Parma | Data de estreia: 23/01 | Direção musical: Fabio Biondi | Elenco: Carlo Vistoli, Francesca Pia Vitale



















