Toni Servillo, ator que o The New York Times situou entre os 25 intérpretes mais importantes do novo século, volta a emprestar sua presença contida e magnética ao cinema de Paolo Sorrentino. Em La Grazia, apresentado no palco do Conca Verde no último domingo, Servillo interpreta Mariano De Santis, um presidente da República prestes a concluir o seu mandato — uma figura que vive o impasse entre a autoridade pública e o vazio íntimo da velhice.
Na conversa, Servillo confessa que sofre cada filme ao lado do diretor: “O vivo e me responsabilizo por ele além do meu papel”, diz com um misto de análise e sentimento. É essa tensão compartilhada — o ator como espelho e como instrumento do diretor — que marca a relação criativa de décadas entre Servillo e Sorrentino. “Girei sete filmes com Sorrentino, não tivemos nunca um atrito”, revela, sublinhando uma cumplicidade profissional que parece um roteiro oculto de amizade e trabalho.
O retrato de Mariano De Santis traça um homem de formação jurídica e valores católicos que se depara com decisões éticas drásticas: conceder duas graças a condenados por homicídio e avaliar a promulgação de uma lei sobre a eutanasia. É a arte do dilema — a política entendida como paisagem moral onde o protagonista, rodeado pela filha Dorotea (amiga íntima e conselheira jurídica), demora-se no processo de ouvir e ponderar até alcançar sua conclusão.
Servillo distingue sua própria experiência daquela figura: se o presidente interpreta a velhice como perda de utilidade — “a liberdade, a certa idade, serve pouco” —, o ator afirma que aproveita e protege sua liberdade. “Não me entrego às garras do mercado. Escolho meus projetos”, declara. Este posicionamento ecoa sua trajetória: fundador da companhia Teatri Uniti em Nápoles, teatro é seu habitat, e o cinema chegou tarde. Não como fuga, mas como extensão de um repertório teatral que ele jamais traía, porque considera o público teatral uma responsabilidade sagrada.
Além do vínculo com Sorrentino, Servillo recorda parcerias duradouras: seis filmes com Mario Martone e quatro com Roberto Andò. A coleção de colaborações não é mero acúmulo creditado, mas uma busca por “aventuras humanas, sodalícios” — laços de trabalho que, na sua leitura, constituem o eco cultural de uma carreira pensada a longo prazo.
No fundo, La Grazia mede a política e a ética pelo pulso íntimo de quem decide. A narrativa do filme funciona como um espelho do nosso tempo: revela como as grandes decisões públicas têm um roteiro íntimo, um fluxo interno de dúvidas, escutas e reverberações. Servillo, por sua vez, continua sendo um intérprete que transforma a personagem em objeto de reflexão social — não uma celebridade, mas um mediador entre a arte e o espectador.
Como observadora cultural, não deixo de ver em La Grazia um reframe da realidade contemporânea: a autoridade que se defronta com a fragilidade humana; o político que se torna espelho do nosso imaginário coletivo. E, no centro desse pequeno grande conflito, está a generosidade do ator que, mais uma vez, aceita sofrer com o diretor para entregar ao público uma figura complexa, frágil e invulgarmente humana.
Em tempos em que o espetáculo frequentemente se confunde com espetáculo de si mesmo, a parceria entre Toni Servillo e Paolo Sorrentino continua a lembrar que o verdadeiro impacto cultural nasce do cuidado — daquela afinidade discreta que permite transformar cinema em reflexo do nosso tempo.






















