Por Aurora Bellini — Aos 26 anos, Cristina Castronovi carrega um percurso académico sólido — uma licenciatura em Sociologia e um mestrado em Criminalidade, Investigação e Segurança Internacional — e uma escolha de vida que revela o seu compromisso ético. Originária de Taranto, ela poderia seguir trajetórias formais nas grandes organizações internacionais. Preferiu, porém, voluntariado de presença e calor humano, sem perder a lucidez sobre os desafios do mundo.
Quando, em fevereiro de 2022, a guerra eclodiu na Ucrânia, Cristina não hesitou. Dez dias após o início da invasão, comprou um bilhete para a Polónia e partiu com uma amiga. Não estavam inscritas em nenhuma entidade: eram duas raparigas com um B&B perto da fronteira e o dinheiro angariado entre amigos e familiares de Taranto. Disseram-se que, naquela primeira viagem, ao menos iam abraçar as crianças e comprar sumos. Foi assim, desse gesto simples, que descobriu que ser voluntária nem sempre é distribuir bens materiais — muitas vezes é simplesmente estar presente, olhar nos olhos de quem perdeu tudo.
Mais tarde, o caminho de Cristina cruzou-se com o da Operazione Colomba, o corpo não violento de paz da Comunidade Papa Giovanni XXIII. Com eles regressou à Ucrânia, sobretudo às cidades de Mykolaiv e Kherson, onde a presença humana se transforma em cimento para laços que resistem ao tempo e ao medo. «Não trazemos pacotes de mantimentos: oferecemos presença ao lado de quem fica. Construímos ligações que permanecem», explica.
Um desses laços nasceu dentro de um bunker em Mykolaiv. Ali conheceu Bogdan, um menino de nove anos cuja vida foi golpeada pela guerra: o pai morreu na linha da frente, a casa foi destruída e a escola deixou de ser parte do seu quotidiano. Não sabia ainda ler e brincava com um patinete pequeno demais para ele. Quando se viram, Bogdan abraçou Cristina; desde então, sempre que ela retorna às zonas onde actua, o menino corre ao seu encontro. Essa imagem — uma criança que ainda encontra força para correr em direcção a um abraço — iluminou o sentido do seu compromisso.
Cristina regressou à Ucrânia por três vezes. Com o passar dos meses, percebeu que o impacto maior não é o de um só voluntário, mas da presença colectiva. As pessoas lhes disseram: «Bem-vindos de novo a casa». Palavras que, segundo ela, podem significar partilhar um pouco de dor e também um pouco de alegria — e, sobretudo, manter viva a dignidade humana no meio do conflito.
Hoje, enquanto espera uma oportunidade formal no sector humanitário, Cristina trabalha como vendedora numa loja de roupa em Taranto. Não enxerga esse trabalho como contradição, mas como parte de um equilíbrio entre o quotidiano e o chamado ao serviço. Para ela, o voluntariado é uma força civil imprescindível: «Se faltar a mobilização desde baixo, tudo desmorona. A política internacional não chega; o voluntariado mantém a humanidade acesa nos conflitos».
O seu percurso é uma lição prática de como pequenas luzes, quando reunidas, podem revelar novos caminhos. Não se trata de um romantismo ingénuo, mas de uma aposta concreta na solidariedade organizada—um replanteio do dever cívico que semeia inovação social. Cristina não busca glória; cultiva laços, constrói presença e ajuda a manter um horizonte límpido para quem vive a guerra diariamente.
Enquanto a sua carreira profissional avança e novas oportunidades se abrem, Cristina permanece fiel ao princípio que a levou a partir: tornar-se presença onde a humanidade mais precisa. É esse fio de luz — feito de corações, mãos e rotinas partilhadas — que continua a iluminar o trabalho da jovem voluntária de Taranto, sinalizando que, mesmo nas sombras, é possível cultivar valores e reinventar o futuro coletivo.





















