Olimpia Sermonti não lembra um instante preciso em que decidiu dedicar a vida ao serviço dos outros. Há memórias que se entrelaçam — as lutas da mãe ativista, as lições do professor primário que falava da importância de ser um cidadão ativo — e um curso universitário que iluminou um caminho: o Curso sobre Emergências Humanitárias.
Formada em Ciência Política, com um estágio que a levou a uma consultoria nas Nações Unidas em Roma, Olimpia poderia ter permanecido em um emprego estável. Mas havia uma urgência no desejo de atuar onde as pessoas mais precisam. Assim, falou com amigos, com a família, despediu-se do namorado e partiu para a Jordânia graças ao serviço civil. Foi ali que encontrou a ONG que mudaria sua trajetória: Intersos.
Hoje, como coordenadora de Programas no escritório regional da África da Intersos, ela apoia missões em países como Chade, Camarões, República Centro-Africana e República Democrática do Congo na priorização de necessidades, no desenvolvimento e na implementação de projetos de emergência. A atuação exige tanto visão estratégica quanto fibra: identificar necessidades imediatas, desenhar respostas eficazes e acompanhar a execução em contextos muitas vezes imprevisíveis.
Sobre a entrada dos jovens neste universo, Olimpia é categórica: o serviço civil é uma porta de acesso fundamental. “O serviço civil é um modo maravilhoso para os jovens entrarem neste setor”, diz ela, com a clareza de quem conhece o caminho de dentro. Essa experiência foi o ponto de virada que a levou a trabalhar em territórios complexos — Congo, Burundi, Ucrânia, Chade, Quênia, Líbia, Sudão do Sul, e Camarões — onde aprendeu a transformar convicção em ações concretas.
Quando lhe perguntam por que escolhe essa vida, ela responde com a simplicidade honesta que ilumina seu compromisso: “Porque é o que devo fazer”. E explica com contundência ética: o privilégio de ter nascido na Itália, de poder estudar, de escolher o próprio destino — sem casamentos impostos ou gravidezes precoces — é para ela uma questão de sorte que traz responsabilidade.
Não é uma trajetória sem sacrifícios. Durante a pandemia, enquanto vivia em Kinshasa, no Congo, num cenário ainda marcado pela antiga epidemia de ebola, Olimpia recebeu a orientação de seu diretor regional sobre voos de repatriação. “Não me senti pronta para partir”, conta. Nesses anos, ela esteve ausente de momentos íntimos: não viu o nascimento da última sobrinha, não assistiu à formatura do irmão, não participou do chá de panela da irmã e perdeu casamentos de amigas. Cada ausência tem um preço humano que pesa no coração.
Mesmo assim, o ponto de equilíbrio para ela é claro: transformar a sorte em serviço. Na prática, isso significa construir respostas que funcionem localmente, apoiar equipes em terreno, formar parcerias e garantir que a assistência preserve dignidade e esperança. É um trabalho que semeia valores e ilumina novos caminhos para comunidades em reconstrução.
O percurso de Olimpia Sermonti é também um convite — para jovens, instituições e doadores — a valorizarem caminhos de entrada como o serviço civil e a fortalecerem a cooperação como forma de legado. Em tempos de crises múltiplas, a experiência de quem atua na linha de frente mostra que a ajuda eficaz nasce da combinação entre técnica, presença e um compromisso ético com as pessoas.
Como curadora de histórias que iluminam o progresso humano, vejo na trajetória de Olimpia a metáfora de um farol: sua carreira revela a possibilidade de transformar privilégio em responsabilidade e de cultivar solidariedade que reverbera. É um lembrete de que, para semear inovação social, precisamos tanto de coragem quanto de humildade — e de políticas que abram caminhos para novas gerações vestirem a responsabilidade de cuidar do outro.






















