Por Marco Severini — O recente movimento diplomático em torno da gestão pós-conflito de Gaza assumiu contornos de um tabuleiro em que as peças se deslocam com pressa, mas sem consenso. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou publicamente que convidou o presidente russo Vladimir Putin a integrar o novo Conselho de Paz — a instância proposta para supervisionar e gerir a reconstrução de Gaza. A declaração foi proferida a jornalistas enquanto Trump embarcava no Air Force One rumo ao Fórum Econômico Mundial de Davos. Ele busca, segundo a Casa Branca, a assinatura do ato constitutivo do conselho já na quinta-feira em Davos.
No entanto, o projeto encontra resistências concretas e estratégicas. Fontes israelenses, reproduzidas pelo portal Ynet e por outros meios locais, indicam que um grupo de ministros do governo de Benyamin Netanyahu decidiu não reabrir o posto fronteiriço de Rafah — a passagem entre a Faixa de Gaza e o Egito. A medida, tomada em reunião no domingo e ainda não tornada pública oficialmente, converge com a posição israelense de rejeitar a inclusão de altos representantes da Turquia e do Catar no Conselho de Paz.
O Exército de Israel acrescentou condicionantes: a reabertura de Rafah não deveria ocorrer em ambas as direções antes que o Hamas aceitasse o desarmamento e restituísse o corpo do último refém israelense, Ran Gvili. Manter o valico fechado é, nas palavras de analistas locais, uma jogada destinada a contrariar pressões externas — sobretudo dos Estados Unidos — e a desafiar um dos pilares do plano de Trump para encerrar o conflito, que previa justamente a reabertura da passagem.
Do lado europeu, o presidente Emmanuel Macron descartou integrar o Board of Peace. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores francês disse à CNN que Paris recebeu o convite, mas optou por não participar por ora. A leitura pública de Paris é técnica e política: o estatuto proposto não se limitaria a Gaza, ao passo que a resolução aprovada pela França no Conselho de Segurança era explicitamente dirigida à Faixa de Gaza e ao contexto regional. Há, além disso, uma preocupação quanto à compatibilidade do estatuto com os princípios e procedimentos das Nações Unidas — uma questão de racionalidade institucional que Paris não quer submeter a improvisos.
No campo regional, a Presidência síria anunciou que o presidente Ahmed al Sharaa manteve diálogo telefônico com Donald Trump sobre garantias aos direitos curdos, após um frágil acordo entre Damasco e forças curdas. Ambos os líderes, segundo comunicado oficial, ressaltaram a importância de proteger os direitos do povo curdo dentro da integridade do Estado sírio e acordaram dar seguimento à cooperação contra o Estado Islâmico (ISIS).
O quadro que emerge é de uma trégua frágil, mas também de um redesenho de fronteiras invisíveis entre atores estatais e regionais. A iniciativa americana de formar um Conselho de Paz com assinatura apressada em Davos tem a intenção de criar um alicerce para reconstrução; contudo, sem consenso sobre composição, mandatos e garantias, o ato pode converter-se em fonte de novas tensões. A exclusão ou a hesitação de capitais como Paris e a resistência de Jerusalém quanto a Rafah ilustram que a tectônica de poder no Médio Oriente permanece instável.
Em termos estratégicos, há um padrão claro: cada decisão é um movimento decisivo no tabuleiro da região, e cada recusa revela medos sobre quem ficará com a iniciativa política e econômica na fase pós-conflito. A inclusão de Moscou no Board of Peace, se confirmada, seria um lance simbólico de amplitude geopolítica; a não reabertura de Rafah, por sua vez, é uma peça que protege objetivos imediatos de segurança, mas alimenta a crise humanitária e fragiliza a legitimidade de qualquer autoridade que venha a gerir a reconstrução.
Conclusão: a assinatura pretendida para quinta-feira em Davos poderia consolidar um ponto de partida institucional, mas, sem uma base de aceitação ampla e mecanismos claros de verificação, corre o risco de ser mais um documento do que um projeto de estabilidade. Na arquitetura das relações internacionais, alicerces frágeis oferecem pouco conforto aos civis de Gaza e apresentam riscos de novos deslocamentos na distribuição de poder entre Washington, Moscou, Paris e os atores regionais.






















