Por Aurora Bellini — Ao acender novas luzes sobre escolhas de viagem, às vezes é preciso também revelar onde não devemos mais pousar. Em um texto pessoal publicado recentemente, o explorador e cofundador da Lonely Planet, Tony Wheeler, de 78 anos, listou três destinos aos quais não pretende retornar — por razões que se entrelaçam entre política, ética e conservação. Com o olhar de quem já cruzou continentes e semeou roteiros pelo mundo, Wheeler expõe motivos que nos convidam a refletir sobre o impacto do turismo e a responsabilidade de cada viajante.
Em primeiro lugar na sua lista figura a Rússia. Wheeler afirma que não voltará ao país enquanto perdurar a agressão contra a Ucrânia e enquanto o governo de Vladimir Putin mantiver práticas que, na sua visão, violam direitos humanos. O viajante, que tem dupla cidadania — australiana e britânica —, recorda também episódios trágicos ligados ao conflito, incluindo o abatimento do voo Malaysia Airlines MH17 em 2014, que matou passageiros inocentes, entre eles cidadãos australianos. Para ele, retornar à Rússia seria fechar os olhos a uma ferida ainda aberta no mapa geopolítico e humanitário.
Em segundo lugar, Wheeler cita a Arábia Saudita. Embora o reino tenha investido bilhões para se transformar em polo turístico, o cofundador da Lonely Planet enumera questões que lhe parecem irreconciliáveis com seu senso de responsabilidade como observador do mundo: o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, denúncias sobre maus-tratos a trabalhadoras e trabalhadores domésticos originários da África Oriental e relatos sobre tráfico de animais silvestres — incluindo o caso de ghepardi provenientes do Somaliland vendidos como exóticos e posteriormente descartados quando se tornaram indomáveis. Wheeler, que visitou a Arábia Saudita em 2002, conclui com um “não, obrigado”, ponderado e firme.
Por fim, aparecem os Estados Unidos, país que o viajante conhece bem: morou cerca de uma década em diferentes regiões (Midwest, East Coast e West Coast) e fez questão de visitar praticamente todos os 50 estados, adicionando recentemente Missouri e Carolina do Sul à sua lista, após ter percorrido Montana no ano anterior. Restavam-lhe apenas Alabama, Kansas e Mississippi. No entanto, Wheeler admite que sua disposição para retorno mudou após as recentes viradas políticas: a administração que ele descreve como alinhada a forças internacionais que desestabilizam a ordem mundial o desanima a revisitar o país neste momento.
O que se manifesta por detrás dessas recusas não é mero capricho, mas uma escolha ética. Wheeler reconhece suas ligações pessoais com os Estados Unidos — amigos, memórias, tempo de vida — e ainda assim opta por colocar princípios à frente de roteiros. Como curadora que olha para o legado que deixamos ao viajar, vejo nessa decisão uma luz que ilumina novos caminhos: viajar não é apenas marcar territórios no mapa, é assumir o cuidado pelo mundo que habitamos.
Para viajantes conscientes, a mensagem é dupla: há destinos a serem celebrados e há destinos cujas circunstâncias exigem reflexão profunda. Cultivar valores ao escolher onde ir é tão importante quanto aprender a fotografar a aurora ou ler um mapa. Em tempos de horizontes conturbados, que nossas viagens sejam também sementes de transformação — seleções que favoreçam a justiça, a conservação e o diálogo intercultural.
Nota: Wheeler escreveu suas observações em um texto pessoal. As informações aqui reescritas mantêm os fatos relatados pelo autor, contextualizados pela curadoria editorial da La Via Italia.





















