Guarde este texto e releia quando quiser: em tempos de tributos televisivos que costumam ficar na superfície, o especial Ornella Vanoni… senza fine, idealizado por Fabio Fazio e exibido no Nove, surge como um espelho do nosso tempo. A cantora, que nos deixou em 21 de novembro de 2025, ganhou uma homenagem que dificilmente será superada pelas cinco noites do próximo Festival de Sanremo (24-28 de fevereiro de 2026).
Não se trata apenas da excelência das interpretações ou da beleza das canções revisitadas, mas da intensidade afetiva — quase um curto-circuito emocional — com que cada convidado traduziu apreço e admiração por Ornella Vanoni. O palco de Che tempo che fa expandiu-se, literalmente, até os jardins em frente ao Teatro Strehler, em Milão, que, desde o domingo da exibição, passaram a ser um pequeno memorial: um canteiro será dedicado a Ornella Vanoni, uma iniciativa celebrada pelo prefeito Giuseppe Sala e pelo assessor de Cultura, Tommaso Sacchi, que a definiu como cantante, artista e donna libera.
As canções de Vanoni — como nos lembrava Pasolini, com seu poder magico, abietto e poetico — atuam como pequenas madeleines: evocam sabores, cheiros e tempos que julgávamos perdidos. E, ainda assim, reaparecem para públicos mais jovens com a mesma capacidade de surpresa. A voz que muitos descreveram como uma voz de veludo e cristal encontrou novas molduras nas versões de Marco Mengoni, Annalisa, Elisa, Mahmood, Francesco Gabbani e na trompa lírica de Paolo Fresu. Cada releitura reabre uma escuta, um reframe da memória afetiva coletiva.
Em especial, a interpretação de Elisa de L’appuntamento foi um desses momentos em que a canção se revela inteira: não apenas um repertório a ser lembrado, mas um roteiro emocional que nos permite nomear desejos e saudades. Como Freud dizia sobre os sonhos, as canções são desejos; nem toda sociologia cultural dará conta de aprisioná-los em teoria, porque o seu funcionamento é de ordem simbólica e íntima.
Paola Mastrocola já confessou, sobre Vanoni, algo que soa como confissão e brincadeira: ao ouvi-la, sentia-se uma grande mulher, cercada de admiradores que ela, com graça, deixava à margem. Essa ambivalência — entre o que se ousa dizer e o que se canta — é parte do legado da artista. Em suas músicas havia a chance de dizer o que o cotidiano às vezes silencia: o ardor, a ousadia, a melancolia.
O especial de Fazio, com sua montagem que mistura memória pessoal e reverência pública, não é apenas um programa de televisão: é um espaço de luto e celebração, um pequeno teatro de ritos sociais onde a música funciona como rito de passagem. A placa no jardim do Teatro Strehler e o canteiro nomeado em Milão são gestos concretos de uma cidade que transforma sua geografia em memória viva.
Se Sanremo ainda guarda surpresas e possibilidades, a homenagem a Ornella Vanoni lembra que o verdadeiro prêmio da música é a forma com que nos oferece um espelho — e um roteiro — para entender quem somos, juntos. Em tempos de consumo rápido, esse especial foi uma pausa necessária: uma madeleine de estupenda beleza que reativou emoções e nos lembrou do poder coletivo das canções.






















